Vieram de toda a parte para dizer adeus ao Papa

Crónica de Roma, coração do Mundo A minha relação com as palavras nunca foi de muita fluência. E esta falta de espontaneidade aumenta de tensão, quando se trata de narrar os últimos acontecimentos experienciados na cidade eterna de Roma, no que diz respeito à morte do Papa João Paulo II e à vinda de uma multidão que não era de todo esperada. Quem se encontra, aqui, em Roma, faz uma experiência de universalidade da fé e de culturas da humanidade, que, por nada, é fácil de transmitir.

Foi forte o sentir de uma multidão com os rostos da humanidade dispersa por todo o mundo. Rostos serenos, com lágrimas que escorriam à cadência de uma oração, de um cântico, de um aplauso. Rostos, sobretudo, jovens. Muitos. Rostos de todas as idades, com leves e suaves sorrisos de quem acredita na vida para além desta realidade terrena, de dor pela ausência. Rostos que tinham estampada a certeza de uma vida que terminou o seu curso na terra dos homens e iniciou uma nova peregrinação rumo à eternidade. Conscientes de estarem diante de uma vida totalmente gasta em favor do Homem de hoje, fiel à mensagem do Evangelho de Cristo, sempre actual. Uma vida que se gastou a levar essa mensagem a todos os homens de boa vontade.

Não era esperada tamanha multidão. Ninguém esperava; mas vieram de todas as partes do mundo, para prestar uma última homenagem e oferecer uma última oração ao homem de Deus, que tantas vezes e de tantos modos procurou e esteve junto dos homens deste final e início de novo milénio. Agora, sentiram o imperativo de vir e prestar tão sentida homenagem.

Mal se soube da hora de abertura da Basílica de São Pedro para a visita de crentes e não-crentes, milhares de pessoas sentiram o imperativo de, simplesmente, vir. Esperaram horas e horas, em filas intermináveis, só para lançarem um fugaz olhar ao esquife do Papa João Paulo II e pronunciar uma breve oração. De segunda-feira, 4 de Abril, às 17 horas, até ao funeral, a Basílica de São Pedro só fechou na primeira noite por um período de hora e meia, por razões de ordem prática, e não fechou mais, até às vinte e duas horas antes dos ritos fúnebres.

Tive a oportunidade de fazer o caminho inverso ao dos peregrinos, que lentamente se encaminhavam para a Basílica de São Pedro. E vi rostos de homens e mulheres, de jovens e crianças, cansados mas sem darem sinais de cansaço. E um silêncio que impressionava e interpelava, só quebrado pelas sirenes das ambulâncias.

E mais uma vez, os rostos. Rostos sem nome, numa fila interminável, com sacos-cama e mochilas, alguma coisa que comer e beber. Empunhavam bandeiras e lenços de outras batalhas: de encontros mundiais de juventude ou das visitas papais, cartazes com saudações, bandeiras nacionais, um colorido alegre e vivo, como que a dizer: “Estou(amos) aqui por e para ti”.

A simplicidade e o silêncio do féretro com o corpo do Papa João Paulo II falaram ao coração de milhões… Talvez o seu mais eloquente discurso.

Ontem (7 de Abril), na catedral de São João de Latrão, realizou-se uma vigília de oração. Ninguém faltou à chamada. Outra multidão e, outra vez, sobretudo de jovens, que extravasou para o grande recinto exterior, onde ecrãs gigantes transmitiam tudo quanto no interior acontecia. E mais uma vez, um si-lêncio orante, uma paz, um ambiente espontâneo, que fazia sentir-se cheio e sereno quem ali se encontrava.

Já hoje (8 de Abril), dia da celebração eucarística e dos ritos fúnebres em memória do Papa João Paulo II, a multidão apresentou-se na Praça de São Pedro, mas também no Círculo Massimo, na Praça de São João de Latrão, em Torre Vergata, no estádio Olímpico de Roma, na Praça do Povo, onde foi possível seguir em directo as celebrações, pois era materialmente impossível acolher toda a multidão na Praça de São Pedro.

Impressionante e desafiante a simplicidade e sobriedade do caixão do Papa João Paulo II, que durante a eucaristia exequial ficou fechado e exposto à multidão… e era caixão de um Papa. E sobre o caixão foi colocado o livro dos evangelhos (Evangeliário) que ao vento se foi desfolhando, de trás para a frente, da frente para trás, e no final, fechou-se, como que a dizer, a vida do Papa João Paulo II foi um Evangelho de Cristo vivo e aberto a todos e que, agora, com a sua morte se fecha, deixando o campo preparado e a semente lançada, para brotar e dar bons frutos.

No final das celebrações, o féretro com o corpo do Papa João Paulo II regressou à Basílica de São Pedro, para ser sepultado, nas Grutas Vaticanas, na terra, em campa rasa, como era da sua vontade, deixada em testamento espiritual. Mas não sem antes a multidão o aclamar e, num longo aplauso, prestar a sua última homenagem.

Roma e a Igreja Católica viveram, neste últimos dias, um momento histórico de fé, marcado pela presença de uma multidão de que não há memória.

De facto, este homem deixou, não a sua marca pessoal, mas a marca de Deus, no coração de cada um e de todos.