Educar… hoje A minha amiga L. Clementina disse-me que “livros pequeninos” (literatura juvenil – formato A5) só tem os que lhe dou. Feitas as contas, deve ter uns cinco, pois tenho-lhe oferecido um em cada Verão. Nos 15 dias em que nos encontramos na praia, vai lendo o livro, umas vezes debaixo do seu guarda-sol, noutras, ficamos juntas a ler no meu. Quando me esqueço de lhe levar um livro, aproveito a providencial Feira do Livro que a Câmara Municipal de Vila Real de Santo António promove em Monte Gordo. Neste ano, ofereci-lhe o livro mais fininho de todos os que lhe dei até hoje, disse a L. Clementina, com um sorriso de alegria, mas talvez com um misto de tristeza porque iria lê-lo mais depressa. E o próximo Verão levará um ano a chegar… e 365 dias são muitos dias!
Quando nos conhecemos, há 11 anos, tinha ela três anos, às brincadeiras próprias da idade fomos acrescentando, ano após ano, no mesmo sítio, na mesma quinzena, as histórias dos suplementos de Domingo dos jornais, acrescidos de outros livros, graças à Feira do Livro referida.
Durante o ano lectivo, as Bibliotecas vão respondendo, de alguma forma, às necessidades de leitura da L. Clementina. Serão talvez poucas essas necessidades, uma vez que estas, como quase todas, devem ser fomentadas.
A Helena e a Catarina são duas meninas com quem me cruzei neste Verão, num total de duas ou três horas. (Por coincidência, nestes episódios, só entra um menino, mas poderia aqui relembrar outros capítulos da história dos encontros pela leitura em que os protagonistas são rapazes.) No comboio, cansada de brincar com a boneca e de perguntar ao tio-avô o que é aquilo e para que serve, apesar dos seus sete anos, a Helena resolveu pegar num jornal desportivo e começou a ler. Confessou-me que gosta de ler, mas que não se tinha munido de nenhum livrinho para a viagem. A certa altura, o tio-avô perguntou-me: “É professora, não é?” A minha resposta positiva não deixou entrever a surpresa que senti – ou talvez não – pela dedução daquele senhor. Teremos um rótulo que permite perceber a nossa profissão? Aproveitou então para se queixar que a Helena estava muito atrasada na leitura, porque tinha tido um primeiro ano atribulado, devido a problemas que diziam respeito à professora. E acrescentou que tinha conseguido que, nas férias, a Helena fosse acompanhada por alguém, de forma a poder fazer o segundo ano de posse das competências que já deveria ter adquirido nas aulas.
A Catarina, no meio da barafunda dos seus irmãos mais novos, sentou-se a ler um livro dos “pequeninos”, como diria a minha amiga L. Clementina. Com mais páginas do que o que ofereci na praia, lia tranquilamente. Quando me sentei ao pé dela, contou-me a história daquele livro e, na confiança dos seus nove anos, começou a ensinar o irmão de quatro anos a ler. Entretanto, este tinha ido buscar o seu livro predilecto, que contava a história de um filme que já vira várias vezes.
É tudo uma questão de predisposição, orientação e organização. Ou será uma questão de prioridades, educação e economia? Seja o que for, o que é certo é que estas crianças, cujos pais andam na casa dos 30 anos, têm todas grande apetência para a leitura, interesse e entusiasmo pelo que o livro lhes traz. Traz-lhes aquilo que os educadores lhes quiserem dar. Não é obrigatório comprar muitos livros (sim, os livros são caros; mas as revistas sobre a vida das celebridades também o são, o tabaco, as bebidas gaseificadas, as chicletes, as gomas e outras coisas mais que supérfluas), mas já se sabe que, se as prateleiras de casa os tiverem, eles constituem um referente cultural, que entrará na personalidade de cada um.
Que se invista na Leitura, neste ano lectivo que agora começa. Há vários projectos que podem ser criados, basta um pouco de imaginação e até uma rápida pesquisa na internet dará sugestões de envolvimento Pais / Escola. Mas não esqueçamos que a Escola tem sempre um papel preponderante junto de uma boa percentagem dos alunos.
