Passatempo

De modo lamentável ainda não conhecia, mas em razão do aconselhamento pródigo, feito por um amigo de leituras alternativas, acabei por ler: “Lavoura Arcaica” de Raduan Nassar. Faz parte de uma inculturação que progride como o caranguejo. Transcrevo um excerto sobre o Tempo, feito de uma autoridade patriarcal em extinção: “(…) rico só é o homem que aprendeu, piedoso e humilde, a conviver com o tempo, aproximando-se dele com ternura, não contrariando suas disposições, não se rebelando contra o seu curso, não irritando sua corrente, estando atento para o seu fluxo, brindando-o antes com sabedoria para receber dele os favores e não a sua ira; o equilíbrio da vida depende essencialmente deste bem supremo, e quem souber com acerto a quantidade de vagar, ou de espera, que se deve pôr nas coisas, não corre nunca o risco, ao buscar por elas, de defrontar-se com o que não é; por isso, ninguém em nossa casa há de dar nunca o passo mais largo que a perna: dar o passo mais largo que a perna é o mesmo que suprimir o tempo necessário à nossa iniciativa; e ninguém em nossa casa há de colocar nunca o carro à frente dos bois: colocar o carro à frente dos bois é o mesmo que retirar a quantidade de tempo que um empreendimento exige; e ninguém ainda em nossa casa há de começar as coisas pelo teto: começar as coisas pelo teto é o mesmo que eliminar o tempo que se levaria para erguer os alicerces e as paredes de uma casa; aquele que exorbita no uso do tempo, precipitando-se de modo afoito, cheio de pressa e ansiedade, não será jamais recompensado, pois só a justa medida do tempo dá a justa natureza das coisas, não bebendo do vinho quem esvazia num só gole a taça cheia;(…)”1.

Hoje sofremos imenso com a aceleração do tempo. Falta tempo, dizemos com angústia e ansiedade. Esta aceleração deve-se, sobretudo, ao progresso tecnológico, aumentando a eficiência e a velocidade, com o consequente impacto no estilo de vida hodierno. “O resultado dessa avidez para “ganhar” tempo é que estamos cada vez mais com a sensação de perdê-lo. Pesquisadores afirmam que uma pessoa hoje sente que ele passa mais rápido do que para alguém que viveu há cem anos. E dão até uma estimativa de quanto: de 1,08 vez, para quem tem 24 anos, a 7,69 vezes, para quem tem 62 anos – a diferença seria causada pelo período de exposição à vida em alta velocidade”2. A regra do “quanto mais rápido, melhor”, a “doença da pressa”, o “stress do tempo que ainda não vivemos” lança a pergunta: até onde isso vai parar? Viva apressando-se lentamente. Não importa a quantidade de tempo gasto, mas o saborear intenso no instante que seja eterno.

O Tempo é um “E”. A beleza, a verdade e o bem do “E”. Ler “e” escrever. Conversar “e” partilhar. Rezar “e” silenciar. Amor “e” sexo. Sempre o omnipresente “e”. Melhora tudo com o “e”, que reúne, que junta, que fecunda, que amadurece, que robustece, que endurece, sempre novamente para terminar, “e” floresce. Somos o “e”. Eu quero ser “e” mais alguma coisa de simples “e” natural. Apenas “e” que é par, parelha, união, comunhão plena. E se perguntarem “e” TU? Eu sou nós que é “isto ‘e’ aquilo”. Eu sou “e” o “e” sou eu, o “e” é o meu tempo; “e” isso é graça que me basta. Por agora suspendo o “ou”, pois o “e” dá bem conta do recado existencial que me cuida do ser aqui “e” agora. O “ou” é separação, divisão, “e” por descrença até a mentira. Se alguém observar sobre a sentença radical “Não podemos servir a Deus e ao dinheiro” (Mt 6,24), cuidado! O Tempo não é dinheiro, NUNCA. Dê ao seu “E” o valor do tempo presente-mais-que-perfeito.