Elogio da Leitura

23 de Abril, Dia Mundial do Livro e do Direito de Autor Parece ser a sina do povo português, sempre na cauda dos relatórios que retratam a condição de literacia dos povos. Tal não seria grave se não estivesse em causa algo tão importante como o nosso acesso ao mundo.

Acedemos ao mundo pela língua, pela leitura que dos factos, dos acontecimentos, fazemos. Alguns dizem, mesmo, que é a capacidade de ler, de interpretar o mundo, que nos diferencia dos demais animais. É uma questão de vermos que, quando estamos no íntimo do nosso pensamento, tudo se movimenta nesse interior com recurso a palavras, mais do que por imagens. Mas, ao que parece, insistimos em dar o privilégio à imagem em relação à palavra.

Muito curioso é comparar isso com a experiência mais profunda da vida que o homem, desde tempos antigos, vem fazendo e que contraria esta nossa insistência em não ler, em não ler o mundo. O mundo bíblico, por exemplo, é todo ele feito em torno do valor da palavra que, nesse contexto, se identificava com a própria acção. Para um Judeu, dar a palavra é realizar. Por isso é que Deus actua no mundo, para o homem bíblico, por meio da Sua Palavra, do Verbo.

Mas nós, homens do tempo da imagem, que nos escudamos no lugar comum de que a imagem vale por mil palavras, esquecemos que, com isto, o que queremos dizer é que só com a palavra é que nos entendemos sobre o que a imagem quer dizer, pois ela é tão ambígua que só com a ajuda de muitas (mil) palavras é que a entendemos.

Dizem, ainda, alguns sábios penetrantes do nosso tempo que, se o homem insistir em bastar-se com ver o mundo e não o ler, não se deleitar a interpretá-lo, ele, homem, estará em perigo. Tornar-se-á vítima da pior das ditaduras: a ditadura das opiniões que tudo têm a dizer sobre tudo sem nada saberem do que falam. E reparemos que sempre foi essa a estratégia de todas as dita-duras: impedir a leitura. O homem ignorante é mais fácil de manipular.

O homem que lê, esse prolonga, em si, a densidade da vida. Inebria-se com o que de melhor a vida lhe reserva. No grande livro da vida, o homem descortina as letras, as palavras de uma narrativa a que só a morte põe reticências. Como dizia Daniel Pennac, a cujo interior me foi facultado acesso pelo seu livro «como um romance», e cuja descoberta devo a um amigo a quem presto a homenagem pelo trabalho ímpar pela leitura e pelo livro (Manuel Aquino), «o tempo de ler é como o tempo de amar: prolonga o tempo de ser.» É hora de ler a vida: combater o tempo de ter com o tempo de ser.