Balanço do Pontificado de João Paulo II

O Correio do Vouga conclui neste número a publicação de testemunhos e comentários sobre os 26 anos de João Paulo II em Roma. O balanço sobre o tempo de João Paulo II só daqui a muitos anos poderá ser feito com mais rigor. Contudo, a consciência eclesial também passa por estas páginas.

Abriu portas ao Outro

O Papa João Paulo II tomou duas posições que ao mundo de hoje (erradamente) parecem antagónicas: por um lado, defendeu princípios inerentes ao facto de o Homem ser imagem e semelhança de Deus como sejam a dignidade da vida Humana e da Família e, por outro, abriu portas ao Outro, isto é, aos jovens, aos outros credos religiosos, aos paises ‘fechados’ por questões políticas, ao mundo em geral.

Helena Cardoso, docente da Universidade de Aveiro

Pediu perdão pelos erros cometidos em nome da Fé

Falar de João Paulo II a partir da América Latina é substancialmente diferente de fazê-lo na proximidade da Velha Europa.

No Brasil, pesa-nos a lembrança de alguma intolerância de Karol Wojtyla contra os “profetas” latino-americanos, ou a desconfiança em relação às práticas libertadoras da Igreja na “Pátria Grande”.

Por isso, nesta hora, prefiro lembrar o Papa que escreveu as encíclicas Sollicitudo Rei Socialis e Centesimus Annus, pediu perdão por tantos erros cometidos em nome da Fé, e que, numa grandeza de alma, perdoou o homem que atentou contra a sua vida em 1981.

Jorge Carvalhais, professor, Missionário Leigo no Maranhão (Nordeste Brasileiro)

Karol Wojtyla estudante em Roma

O Papa João Paulo II preparou a entrada da Igreja neste novo milénio. Um papa universal, de crentes e não-crentes, de todos homens e mulheres de boa vontade, dos formados na universidade da vida ou nos bancos das universidades, dos mais simples aos da cultura. Um papa para o mundo de hoje: atento, próximo, corajoso… verdadeiro homem de Deus e homem do mundo, ao serviço dos homens no mundo. Um homem que se soube abandonar à vontade e misericórdia de Deus, que o sustentou na fragilidade da sua humanidade e na fortaleza de espírito, para que tudo quanto realizou fosse discernido no Espírito de Deus, para glória de Deus e bem dos homens, seus irmãos em Cristo.

Pessoalmente, como padre-estudante em Roma, marca-me o tempo do padre Karol Wojtyla estudante em Roma: uma procura incansável das fontes do saber humano para se abrir à sabedoria e vontade divina e assim melhor servir a Deus no serviço do seu povo polaco, primeiro, e ao homem universal, depois. Um dia o seu olhar cruzou-se com o meu e pude perceber a juventude da sua alma em corpo marcado pelos anos.

Francisco Martins, padre, estudante de Teologia Moral em Roma

Escolheu não ter medo e nunca desistir

Aprendi a postura determinada de jovem, o olhar profundo de velho e o sorriso feliz de criança. Verifiquei que a Vida se estrutura em actos humanos, mas se fundamenta numa dimensão transcendente que a completa. Constatei que as dificuldades e as dúvidas também confrontam os homens que parecem inabaláveis, mas a escolha é não ter medo e nunca desistir. Tornou-se mais fácil acreditar que é possível a vontade de Deus e a do Homem confluírem no mesmo sentido.

Por tudo isto, a melhor forma de agradecer a bênção de conhecer o Papa Wojtyla será proporcionar a outros a experiência do caminho, da verdade e da vida biológica e espiritual em plenitude!

Até sempre, Papa!

Magda Freitas, lic. em Biologia, estudante de Enfermagem

Da janela do Céu, olha-nos como o irmão mais velho

Lembro-me do teu sorriso…

Da tua bondade…

O orgulho na Juventude.

O orgulho da Juventude!

Deste voz aos mais pequeninos, foste a voz dos mais fracos.

Lutaste pela Paz, lutaste contra a guerra, quando muitos esperavam ver-te desistir…

Estiveste sempre ao nosso lado, e hoje, sei que estarás para sempre!

Da janela do Céu, olhando-nos como o irmão mais velho olha o manito pequerrucho.

E ao lado do Pai!

Aquele Pai que não te cansaste de mostrar.

Aquele Pai a quem rezavas pela Humanidade!

Sei que agora estás bem.

Pede por todos nós à tua amiga de sempre, a Mãe do Céu e Mãe dos Jovens!

Obrigado pelo teu exemplo.

Até um dia…

Pedro Martins, bancário, membro do Departamento Nacional Pastoral Juvenil

“Jovens, não tenhais medo de ser santos!”

Lembro João Paulo II, o grande discípulo de Jesus Cristo, o Papa que me marcou desde a infância.

Lembro a minha juventude à luz da Civilização do Amor, proclamada por João Paulo II.

Lembro a minha celebração do Sacramento do Crisma e o postal que a minha madrinha me deu – João Paulo II, sorridente, braços abertos numa expressão de acolhimento e simultaneamente de envio “Queridos jovens: No vosso cami-nhar pelas sendas da verdade, da sinceridade e da autenticidade tendes um modelo ideal: Jesus Cristo! Mas Ele não é só modelo. É também caminho que vos leva ao destino.” Em 1989, em Santiago de Compostela, ouvi o Papa convidar à santidade: “Jovens, não tenhais medo de ser santos!”

Teresa Correia, professora

Nunca se deixou manipular nem manietar

Um homem corajoso e determinado, com objectivos claramente definidos, que nunca se deixou manipular nem manietar.

Transmitiu à Igreja este espírito de coragem e uma maior atenção à denúncia evangélica.

Talvez tenha ficado aquém em alguns aspectos, sobretudo em relação ao interior da nossa Igreja, mas tinha que deixar alguma coisa para os seus sucessores fazerem.

Costa Leite, pároco de Fermentelos e Recardães

Pilar da fé em Jesus Cristo

Foi arauto da paz, incansável lutador dos valores morais em que tanto acreditava. No entanto, o que me marcou mais foi, é e será sempre o grande homem de fé que brotava da sua imagem, que emanava do seu espírito. Que maior exemplo nos poderia dar o nosso bom pastor senão o de ser um pilar da fé em Jesus Cristo?

Só quem nunca esteve próximo do Papa João Paulo II é que poderá negar tal afirmação. Quando em Roma tive o privilégio de ir a uma audiência das quartas-feiras, nunca esperei que me emocionasse tanto por estar na presença daquele grande homem. Dele brotava alegria, paz de espírito, bondade, fraternidade e, acima de tudo, uma forte fé naquele que veio ao mundo para nos salvar.

Obrigado, Senhor Jesus, por terdes criado tamanha pessoa que tanto exemplo deu a todos nós. “Não tenhais medo, abri as portas a Cristo!”

Fernando Cassola Marques, Informático, estudante de Ciências Religiosas (ISCRA)

Nova epifania para a Igreja e o exemplo do silêncio

O Senhor concedeu à Igreja uma nova epifania! João Paulo II foi o protagonista do seu tempo, em que na era de tudo o resto menos do essencial suscitou o mesmo ardor provocado pelo querigma apostólico! Por isso, no tempo das torres de Babel (protótipo da pluralidade disforme) suscitou manhãs de Pentecostes (modelo de comunhão de diversidades). E tudo isto sem respostas ou propostas de vanguarda, apenas provocando o silêncio incomodativo da verdade, da cultura da vida, da nova evangelização, da civilização do amor, do diálogo (de culturas, inter-religioso, ecuménico, na família), da alegria, da afabilidade, da tenacidade, do futuro presente de cada dia: os jovens!

Em todos os encontros que tive com o Santo Padre, pessoalmente, em pequenos grupos, na multidão, nos seus documentos… continuo a sentir a interpelação consolidada na primeira hora a sós com o Papa, em 23 de Agosto de 1997, em Paris: o Espírito Santo envia-te, como «uma carta de Cristo»!

Quando sou levado a sentir que o mais prudente e oportuno para a missão que me é confiada é parar, deixar passar um tempo, continuo firme na convicção – para muitos teimosia – que só o silêncio da acção evangelizadora é que poderá ser sinal do discernimento pastoral! A exemplo do Santo Padre!

M. Oliveira de Sousa, professor, director do Departamento Nacional da Pastoral Juvenil