A Árvore de Zaqueu DOMINGO X – Ano C
Elias salva da morte o filho da viúva em casa de quem se hospedara; Jesus salva da morte o filho da viúva de Naim; e S. Paulo, como intelectual que é, salva-se de uma «vida morta».
Toda a nossa vida, como indivíduos e como grupos humanos e até como humanidade no seu todo, tem fundamentalmente uma preocupação constante: salvar-se – de tudo o que é negativo, e até daquilo para que toda a gente diz que «não há remédio». (O ponto sensível da eutanásia radicará neste impulso para uma salvação sem excepções, levantando questões cada vez mais sérias e controversas à medida que a humanidade toma consciência do sentido da vida).
Politicamente todos desejamos um salvador.
S. Paulo reconhece Jesus Cristo como «salvador» da própria vida, mas tem o bom senso de se salvar a si próprio (um avant-lettre de «fia-te na Virgem e não corras…»).
É muito frequente confundir dois sentidos de ressurreição radicalmente diferentes: a de uma pessoa morta que volta às condições da sua vida anterior; e o acesso a uma nova e permanente forma de vida. Quando a Bíblia relata acontecimentos no 1.º sentido, podemos hoje dizer que estamos perante casos de morte aparente (de acordo com a própria exegese dos textos) e de intervenção de alguém com especiais poderes curativos. É o que terá acontecido nas leituras de hoje, a que podemos juntar casos semelhantes, como o de Eliseu, discípulo de Elias (os únicos relatos no A.T.) ; e, no N.T., com a filha de Jairo (Marcos 5,22 ss.) e ainda com S. Pedro (Actos 9,40) e S. Paulo (Actos 20,8). Não se pode enquadrar nestes fenómenos a «ressurreição de Lázaro» (João 11,1), de tal modo reflecte uma notável elaboração teológica.
No Antigo Testamento, aliás, a ressurreição «neste corpo» não poderia ser aceitável. O termo «ressurreição» apenas se aplica a uma «elevação» dos justos (o novo Israel) a uma existência de nível superior, sem necessariamente implicar a isenção da morte. Nos últimos anos antes de Cristo e sobretudo com o cristianismo, desenvolveu-se a crença na «ressurreição individual», mas é errado pensar que se trata de restituição da vida como a conhecemos. A nova vida é «imortal» porque radicalmente nova.
As «histórias de Jesus ressuscitado» apenas sublinham que se tratava da mesma pessoa, aquele ser único como qualquer um de nós, que muitos pensadores dizem «nascer para a morte», enquanto outros reconhecem que «nascemos e morremos para sempre mais vida». Os evangelhos apenas falam da percepção que alguns discípulos tiveram de que Jesus «não tinha nascido para morrer» e que a sua vitalidade era agora de nível incomparavelmente superior, e que foi «o primogénito» (Colossenses 1,18) do ser humano na plenitude da vida.
Se o poder de ressuscitar fosse mesmo o de aniquilar a morte, seria frustrante e até cruel que os profetas e Jesus só o aplicassem meia dúzia de vezes.
São apenas sinais, e a «ressurreição de S. Paulo» (2.ª leitura) mostra que o essencial é adquirir um olhar tão penetrante que percebe Deus presente nos nossos dramas, presente nas nossas experiências de morte e sustentando a nossa esperança de que a morte não é a última palavra sobre a vida. Nem Deus tem a última palavra, porque Ele é uma só palavra: Vida.
Estas histórias de «ressurreições» levantam sobretudo a questão do significado de vida. Não a deveríamos olhar como uma ressurreição contínua? – para novos tempos, novas oportunidades, para a surpresa sem fim, para passagem de testemunho e, muito importante, para nos sabermos acompanhar nos bons e maus momentos. É assim que não nos limitamos a suspirar de tristeza (e alívio) por alguém que já sofreu – mas descobrimos como podemos todos ser médicos para ajudar os outros à ressurreição de cada dia e assim gozarmos, com eles, da nossa própria ressurreição.
A ressurreição de cada dia é lutar contra todas as formas do mal. E o pior exterminador é a injustiça. Resistir e combatê-la, e aventurar-se na incerteza própria de grandes projectos, é apostar na salvação, rezando em verdadeira comunidade: a ressurreição de cada dia nos dai hoje…
Manuel Alte da Veiga
