Poço de Jacob – 36 O encontro de Jesus com a Samaritana permitiu a Jesus tocar no núcleo do problema da mulher instável que já ia no quinto relacionamento amoroso. No fundo, a samaritana queria encontrar o amor. E estava a procurá-lo por caminhos errados. O seu coração estava seco e sedento. A água que iria apagar a sua sede não vinha do poço de Siquém, mas de uma outra fonte de águas límpidas e transparentes. E estava bem lá no fundo do seu coração.
Jesus despertou a consciência desta mulher para a sua vã corrida da vida e alertou-a que sua sede, querer ser amada, não era infundada nem utopia. Também lhe mostrou que o verdadeiro amor não está situado na esfera material e aparente do ser, ou no ser feminino ou masculino, mas em Deus, que é o próprio amor.
Ele enviou o seu Filho para apagar a nossa fome e sede, saciando-nos do verdadeiro alimento que era Ele mesmo. Perto de Jesus, era, como ainda é, impossível deixar-nos mover pelas categorias materiais e sensuais do ser. Tudo, perto dele, é elevado à esfera sobrenatural, e a própria matéria se espiritualiza, elevando-se a uma beleza que já transporta em embrião.
Jesus pediu água. Ela falou do balde. Jesus ofereceu água viva. Ela perguntou sobre a localização da fonte de tão singular água. Ele mandou chamar o marido. Ela entendeu que o assunto era outro e a resposta de Jesus acordou-a para a sua realidade: não era amada, ou não sabia nada do verdadeiro amor. O mesmo acontece com tanta gente hoje, que sentindo-se chamada para o matrimónio, se deixa mover pela aparência, pela sensualidade, pelo impulso. Mas não auscultam o coração para saber se é por aí e por esse alguém que se encontra a fonte. Daí o divórcio, as crises, as uniões de facto que duram tão pouco e fazem chorar tanto. Só Deus tem a resposta. Ele é o amor. E até o amor humano tem de passar pela peneira do amor divino. Sem Ele, nada permanece. Tudo passa demasiado depressa. Por isso se costuma dizer que, para um cristão, tudo concorre para a glória de Deus.
Experimentar o amor de Deus é garantia de estabilidade emocional, e as nossas opções fundamentais serão marcadas pelo equilíbrio e pela perseverança. Ilude-se quem pensa que há amor verdadeiro fora de Deus. E os resultados estão à vista.
Um dia, um cardeal da Coreia, já falecido, pregando a 6000 padres em Roma, disse numa conferência algo que ajudou muito a orientação de vida de muitos desses padres. Disse o cardeal que, tendo capela no paço episcopal, chegando à noite, cansado de tantos encontros, reuniões e por vezes dissabores, entrava na capela e a sua oração era imensamente simples. Olhava para o sacrário e balbuciava, qual criança magoada: “Senhor, por favor, ama-me”. Era assim que encontrava a compensação e a força para continuar a caminhar.
Depois da descoberta de que a fonte nascia do Coração de Cristo, a Samaritana mudou de rumo anunciou a novidade às pessoas da sua povoação. E talvez também o tivesse feito até ao fim da sua vida. Velhinha, ali nos montes da Samaria, contava aos seus netos o dia em que ela descobriu o amor na sua vida.
P.e Vitor Espadilha
