Sandra Costa Saldanha, directora do Secretariado Nacional dos Bens Culturais da Igreja, fala sobre os diversos projectos que este organismo tem em mãos, alertando para casos de “vida ou de morte” na conservação do património, apresentando como caminho quatro verbos: “Tratar, cuidar, preservar e valorizar”. Refira-se que em Aveiro o ISCRA (Instituto Superior de Ciências Religiosas) prevê avançar em breve com uma acção de formação sobre património religioso. Entrevista conduzida por Luís Filipe Santos, da Agência Ecclesia.
CORREIO DO VOUGA – Que lugar ocupam os Bens Culturais [edifícios religiosos, imagens, livros, arquivos, alfaias litúrgicas…] na dinâmica da pastoral da Igreja?
SANDRA COSTA SALDANHA – Continuam a ocupar um lugar de grande importância no ponto de vista pastoral, nomeadamente porque há beleza dos objectos está, desde logo, directamente associado o seu poder de catequese. Estes objectos podem continuar a exercer esse papel porque é um património que está muito arreigado nas comunidades. Estas sentem muito os Bens Culturais, como algo muito associado às suas dioceses.
E valorizam esse património?
Para além do papel pastoral que desempenham, os Bens Culturais são também um património vivo que precisa de ser valorizado e, sobretudo, preservado. No entanto, nalguns casos a sobrevivência destes objectos está em risco. Muitas vezes, a boa vontade das comunidades na sua preservação faz com que nem sempre sejam tomadas as medidas mais correctas. Têm boa vontade, mas faltam-lhe qualificações próprias para o seu tratamento.
Como foi possível que este património chegasse a tal estado de degradação?
Existem muitos problemas no património cultural português e o património da Igreja não é uma excepção a esse nível. Em muitas circunstâncias, este problema coloca-se pela falta de recursos, mas também pela incúria devida à falta de formação. As noções de carácter preventivo são fundamentais e importantes nestas comunidades.
É fundamental uma concertação maior em termos do ensino e da formação. Ao nível do ensino, as instituições mais directamente ligadas à Igreja deviam exercer um papel mais activo na formação dos seus agentes, nomeadamente dos futuros sacerdotes. Durante o período do seminário deviam ter horizontes mais alargados nestas matérias.
O Secretariado Nacional dos Bens Culturais da Igreja colocou a formação como área prioritária, por isso está a ser constituído um grupo de trabalho para a área da conservação e restauro.
Esse grupo de trabalho terá objectivos específicos.
Em primeiro lugar há um aspecto que é extremamente importante, a aplicação da legislação em vigor no que toca à conservação dos Bens Culturais. Algumas vezes, por desconhecimento a legislação não é aplicada. O grupo de trabalho irá providenciar, com a maior brevidade, uma espécie de dossier com a legislação, formulários e procedimentos.
Recentemente, assinou-se um acordo com o Instituto de Museus e Conservação (IMC) e pretendemos ter alguns benefícios. No âmbito desse acordo, o Secretariado Nacional vai passar a fornecer às dioceses um serviço fundamental, visto que o IMC disponibiliza-se a prestar apoio técnico. As comunidades podem-nos submeter processos de restauro que serão depois devidamente apreciados pelo IMC.
Em 2011, para além da constituição do grupo técnico, realizaremos, em colaboração com o IMC, um conjunto de acções de formação centradas, fundamentalmente, na conservação preventiva. Não pretendemos fornecer uma formação de carácter técnico a quem lida com este património, mas, essencialmente, fornecer ferramentas técnicas de carácter preventivo.
Concretamente, destinam-se a quem?
A todos os que estão em contacto permanente com o património das Igrejas, nomeadamente, os párocos, zeladores, sacristães, membros de comissões fabriqueiras e voluntários. Todo o público que lida directamente com esta área. Serão ministradas pelo IMC e estão previstas quatro acções, deslocalizadas geograficamente, para poder abranger o máximo de paróquias e dioceses. Dar-se-ão indicações, por vezes primárias, mas que são elementares.
Ainda estão na fase das indicações primárias?
Algumas pessoas continuam a não saber lidar com o seu património. É por aqui que, rigorosamente, temos de começar. Há muitas pessoas que não sabem acondicionar um paramento ou limpar uma peça de ourivesaria.
Na maioria das vezes, essas tarefas são executadas pelas «velhinhas» bondosas da paróquia.
São essas senhoras que vão receber esta formação, tal como os outros elementos das paróquias. Isto ao nível primário, mas também existem situações – algumas têm chegado ao SNBC – de alguns párocos que têm alguma verba disponível para fazer um restauro em determinada peça, mas não sabem a quem recorrer. Nestes casos recorremos ao grupo técnico que fornecerá a legislação e um directório de conservadores e restauradores habilitados e creditado à luz dessa legislação para intervir no património e nos bens culturais.
Quem quiser recorrer ao acordo do IMC o que terá de fazer?
Iremos fornecer e explicar esses procedimentos. A paróquia que tiver uma peça a necessitar de restauro deverá solicitar ajuda e o IMC analisa os pareceres técnicos que os conservadores/restauradores darão.
Sabemos que os párocos são extremamente assediados por todo o tipo de conservadores/restauradores ou pseudo conservadores/restauradores. Para que tal não aconteça, o Secretariado Nacional dos Bens Culturais terá um papel mais activo. Vamos explicar como as coisas devem ser feitas e oferecer a possibilidade das pessoas terem apoio técnico.
A questão da conservação e restauro é uma das grandes prioridades.
É urgente. É uma questão de vida ou de morte. Estamos a falar de acervos que estão em risco. Só que, muitas vezes, a boa vontade acaba por complicar mais a situação: em vez de um bom restauro faz-se uma intervenção perigosa que põe em causa a integridade do objecto.
Se silenciamos os Bens Culturais, corremos o risco de eles desaparecerem.
Se os silenciamos e com a degradação que eles têm, nunca mais vão poder cumprir o seu papel pastoral. Se queremos reanimá-los como veículos pastorais, primeiro temos de os tratar, cuidar, preservar e valorizar.
A área dos Bens Culturais é muito abrangente, mas existe um «filho», Projecto da Rota das Catedrais, que merece uma atenção especial. Está em que fase?
A Rota das Catedrais sofre, finalmente, algumas evoluções. Depois do trabalho invisível começam a aparecer os resultados. Existe um relatório que dá conta do estado e do ponto da situação de todas as catedrais.
Até ao final de 2010 e em colaboração com as Direcções Regionais de Cultura serão elaborados os projectos. Um trabalho moroso, mas de extrema importância para que em Janeiro de 2011 – quando as candidaturas abrirem – tudo entrar e ser encarrilado. Aquilo que sei é que todas as direcções regionais de cultura estão em estreito contacto com as catedrais das suas zonas. São situações muito desiguais. Existem catedrais com muitas necessidades e outras com menos. A Rota das Catedrais já tem logótipo que será anunciado brevemente e o sítio do projecto será inaugurado em Janeiro do próximo ano.
Para além de um roteiro por cada catedral far-se-á também uma publicação monográfica em três línguas. Tem um papel de difusão, mas de carácter científico também. Falar de uma rota implica falar de algo uniforme…
Está também agendada a exposição «Rota das Catedrais». Será em Lamego, no Museu diocesano, e decorre dos finais do mês de Abril até ao mês de Julho. A exposição pretende ilustrar as catedrais de Portugal e contará com uma peça de cada uma delas. O comissário científico já escolheu todas as peças.
