O que dizem… Isabel Jonet, presidente da Federação Portuguesa dos Bancos Alimentares Contra a Fome, e José Tolentino Mendonça, padre e poeta, director do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, protagonizaram o segundo “diálogo na cidade”, na noite de 19 de Maio, no Teatro Aveirense, numa iniciativa da Comissão Diocesana da Cultura. O tema de fundo era “igualdade e diferença” no mundo em que vivemos. Aqui fica o registo das principais ideias em discurso directo (IJ – Isabel Jonet; TM – Tolentino Mendonça).
Teatro, lugar de encontro
(TM) O teatro é símbolo da cultura ocidental, lugar de entretenimento e de encontro connosco próprios, espelho da cultura humana, do sentido da vida, da exorcização dos medos. Uma conversa deste género num teatro reabilita a função social que a cultura tem de ter. Cultura não é apenas ornamento e procura de consolação, mas lugar onde nos encontramos mais profundamente naquilo que é a humanidade nas nossas procuras, esperanças e expectativas.
Cultura, lugar de missão
(TM) São Paulo trouxe a novidade da cultura como lugar de missão à mentalidade cristã. Na década de 1980, a criação do Conselho Pontifício para a Cultura actualizou a convicção da cultura como lugar de evangelização. O tempo presente interroga e interpela. Não se crê muito nas respostas, mas todos temos o dever da cultura e da busca. O culto e a cultura caminham a par. A busca do sagrado dialoga com a história.
Crise e decisão
(IJ) A procura de igualdade não anula a diferença. No período em que estamos temos de nos deixar interpelar pelo significado de crise em grego: decisão. Chegou o momento de algumas decisões. Todos fazemos parte uns dos outros. Viver é conviver. Todos somos responsáveis pelo bem comum (que é diferente do interesse geral).
Raiz da igualdade
(TM) Passados os fervores e os radicalismos, podemos verificar que o cristianismo está na origem do ideário da liberdade, igualdade e fraternidade proclamados na Revolução Francesa de 1789. A igualdade, no discurso das origens cristãs, liga-se à universalidade. O valor da pessoa dependia da família, da etnia, da classe. Com o cristianismo, passa a estar ligado ao universal da fé em Jesus. Por isso, diz São Paulo que “não há homem e mulher, judeu e grego, livre e escravo…”
Vidas desassossegadas
(IJ) Pessoas desassossegadas não têm vidas sossegadas. Os bancos alimentares nasceram nos Estados Unidos de uma ideia simples mas genial, um “ovo de colombo”, ir buscar onde sobra para pôr onde faz falta. O meu único mérito foi ter deixado ser um instrumento de amor, dizer sim a sorrir e mobilizar pessoas que querem ser boas mas não sabem muito bem como.
Capital maior é o da esperança
(TM) O amor e a relação são competências. Não são inatas. Falta humanidade. Há défice de fraternidade. Há pouca disponibilidade para a cultura democrática. É tudo deixado para os políticos. Na resolução da crise temos de dizer que os valores fundamentais são competências. O capital maior é o da esperança. Empobrecemos muito na capacidade de transmissão deste capital espiritual e humano, social e íntimo. Oxalá a crise nos ajude a acordar e a perceber que as coisas não vão acontecer por si próprias mas precisam da ajuda de cada um para nascer.
Expectativas defraudadas
(IJ) Grande parte da crispação actual decorre da incapacidade de aceitar algo que não vamos poder ter. Estava interiorizada a certeza de um nível de vida sem grande esforço. Mas a crise tudo mudou, ainda que não queiramos admiti-lo. A crispação reflecte-se nas relações interpessoais e nas famílias. Quando se deixa de partilhar a refeição à mesma mesa, perdem-se valores, referências, histórias de vida, afectos que são os lubrificantes dos valores na sociedade. Aparecem-nos no Banco Alimentar, com maior frequência, grávidas que deixaram de ter a referência do pai e da mãe e da mesa comum. E mesmo em escolas católicas, assustam os actos de brutalidade entre alunos. Uma sociedade sem afectos é insustentável.
Mesa
(TM) A mesa é um símbolo extraordinário da comunidade e da comunhão. O antropólogo Claude Lévi-Strauss relacionou a humanização com a passagem do cru ao cozido. Dos aborígenes aos utlratecnológicos, todos sentados à volta da mesa. Isto importa para o cristão. Comemos juntos porque não nos alimentamos apenas de alimentos, mas também uns dos outros. Comer na solidão é desumano se não encontrarmos um sentido maior.
Ilusão do tempo ocupado
(IJ) Falta aos jovens e às crianças de agora a noção do tempo. Têm todo o tempo ocupado, por vontade dos pais, pelo que não têm tempo para criar, pensar, ver as coisas bonitas. E se têm tempo livre, é ocupado com os ruídos que os invadem. Mas é uma ilusão pensar que se pode controlar o mundo ocupando o tempo todo. É necessário reintroduzir valores. Sem eles não é possível contrariar as tendências.
Sentido da proporção
das dificuldades
(TM) Temos de reaprender o culto da proximidade, o que significa viver juntos. Como dizia Dostoiévksi, temos medo de sermos responsáveis por todos diante de todos. Mas não pode haver demissão. Tem de haver implicação de todos para lá dos juízos morais. Faltam mestres, modelos, exemplos. Mas atenção que as dificuldades que vamos tendo são incomparavelmente menores do que as de outros povos e momentos. No sofrimento e nas dificuldades não podemos perder o sentido da proporção. É preciso ganhar a noção do provisório. Neste momento é assim, mas que me garante que será assim no momento seguinte? Há caminho. Não é beco sem saída. Não é o fim da história, mas etapa que cada um pode melhorar, que está a ser escrita por cada um de nós.
Felicidade com identidade
(TM) Precisamos de parábolas. Há histórias que merecem ser contadas. Na sociedade da comunicação, há demasiada incomunicabilidade, solidão, silêncio forçado. Precisamos de novos moldes e perguntas, mestres que nos ensinem uma felicidade acessível. Precisamos de tirar felicidade daquilo que posso ser. Ser feliz dentro da minha realidade. A pobreza em si mesma não é um obstáculo à humanidade. Há muito para transformar nas mentalidades, há que questionar os modelos de felicidade e valorizar outras dimensões como a capacidade de acolher, de amar, de inspirar os outros.
Crentes e laicos
(TM) É importante que as sociedades olhem para as religiões como parceiras da construção e repudiem o laicismo exacerbado que quer retirar legitimidade ao crente. O inimigo do cristão não é o ateísmo ou o agnosticismo, mas a fome, a exclusão, o ódio. De ambas as partes há que desistir de atitudes sobranceiras, do monólogo sobre os outros. O trabalho dos crentes é testemunhar humildemente a fé no espaço público. A vida é uma sucessão de começos.
Os novos pobres são velhos
(IJ) A grande maioria de pobres está na população idosa. Há mais de um milhão a viver com menos de 280 euros por mês. A comunicação social só apresenta pobres novos porque não é sexy ser velho, como me disse uma jornalista.
