Colaboração dos Leitores Com a aprovação do Tratado de Lisboa, nele ficou consagrado o “direito à petição”. Assim alguns movimentos e até deputados europeus fizeram circular na Internet uma petição para apresentar ao Parlamento Europeu, que precisava de um milhão de assinaturas, para pedir “a consagração do domingo como dia de descanso e um dos pilares essenciais do Modelo Social Europeu e da sua herança religiosa e cultural”.
As grandes superfícies comerciais, como sabemos, vieram revolucionar os custos dos artigos e os horários de funcionamento. A noção de grande superfície é um pouco arbitrária. Um hipermercado é considerado uma grande superfície, mas um supermercado não o é. Ora um supermercado comparado com um estabelecimento de comércio a retalho é um gigante. O primeiro pode abrir ao domingo, o segundo não.
No momento actual e contra a opinião de pessoas de bom senso, entre as quais destaco o Senhor Arcebispo de Braga, D. Jorge Ortiga, a abertura ao domingo das grandes superfícies veio a concretizar-se. Enquanto os donos destas embandeiram em arco, o pequeno e médio comerciante lamenta-se e vê o seu fim à vista.
Mas, para mim, o problema não é de ordem económica, mas social, moral e familiar.
Na Europa estudos feitos sobre o futuro do trabalho prevêem, não só uma redução da jornada laboral, mas também horários flexíveis e tarefas que possam ser realizadas em casa sem prejudicar a rentabilidade. Na Alemanha a abertura do comércio ao domingo tem gerado debates entre os que adoptam costumes mercantis e os que defendem o domingo como um tempo de descanso.
O assunto despoleta as mais variadas opiniões: uns afirmam que é errado pensar em elevar os lucros, esquecendo a vida familiar dos trabalhadores; outros pensam que este caminho não leva à manutenção dos postos de trabalho. São muitos os que estão contra o trabalho ao domingo.
Muitos afirmam que o trabalho ao domingo não afecta o descanso semanal dos trabalhadores uma vez que gozam de uma folga noutro dia. Isso pode ser verdade e é, mas o sentido festivo do domingo perde-se, com graves transtornos familiares. Normalmente os pais trabalham toda a semana e o descanso das actividades escolares dos filhos é ao domingo. Se os pais trabalharem ao domingo deixa de haver pelo menos um dia em que todos possam estar juntos, degradando-se ainda mais a vida familiar, onde actualmente o diálogo já é muito difícil.
A abertura dominical é algo próprio do “mundo da economia de mercado, na qual se tenta criar necessidades”, mas também é uma tentativa de dificultar o culto dominical, já muito prejudicado com os treinos desportivos de manhã, e as actividades à tarde, dificultando a prática dos que são religiosos.
Está provado que não é com o trabalho dominical que se combate o desemprego. O melhor é aproveitar bem as horas semanais. A baixa produtividade é algo que deixa espantados os investidores estrangeiros que nos visitam. Nos seus países o ritmo de trabalho é muito mais intenso que entre nós. Estão habituados a considerar que trabalho é trabalho e não se compagina com a audição de relatos de futebol ou com conversas sobre os episódios das telenovelas ou com interrupções prolongadas para tomar “o cafezinho” ou “fumar um cigarrinho” coisa que entre nós é vulgar.
O que se passou no 1.º de Maio deste ano que calhou a um domingo, ainda vai fazer correr muita tinta: os sindicatos queriam que os estabelecimentos não abrissem, não por ser domingo, mas por o Dia do Trabalhador. Alguns empresários acharam que em tempo de «crise» deviam abrir, e abriram, pagando aos que foram trabalhar o dobro do salário.
E o insólito aconteceu: os que já costumavam trabalhar ao domingo, com o dobro do salário, protestam que «neste» domingo, por ser Dia do Trabalhador deviam receber o quádruplo do salário! É realmente assim, com esta mentalidade que se vencem as crises? Quem souber responda.
Maria Fernanda Barroca
