O Padre Angel Strada, 71 anos, argentino, é o postulador da causa de canonização do Padre Josef Kentenich (1885-1968), fundador do Movimento de Schoenstatt. No final de Maio, a pretexto da preparação para a comemoração em 2014 do centenário da Aliança de Amor (fundação do movimento), o padre argentino que vive na Alemanha esteve na Gafanha da Nazaré, onde o movimento tem um santuário e comunidades de padres e irmãs. Conheceu pessoalmente o P.e Kentenich, pelo que testemunhou como o sacerdote alemão irradiava santidade. Entrevista conduzida por Jorge Pires Ferreira.
CORREIO DO VOUGA – Em que ponto está o processo de canonização do fundador do Movimento de Schoenstatt?
ANGEL STRADA – Está no ponto seguinte: começou em Fevereiro de 1975. O P.e Josef Kentenich morreu em Setembro de 1968. Sete anos depois, iniciou-se o processo. O processo dos confessores – outra coisa são os processos dos mártires – tem duas etapas, uma na diocese, onde a pessoa viveu a maior parte do tempo, e outro em Roma. Na diocese reúne-se todo o material informativo que for possível para investigar a vida da pessoa e sobretudo investigar se a pessoa viveu heroicamente as virtudes cristãs. Ouvem-se testemunhas, examinam-se os escritos, reúnem-se todos os escritos não publicados, verifica-se que não se presta culto litúrgico, para não haver adiantamentos à decisão da Igreja, etc. Tudo isso já está terminado, na diocese de Tréveris, que é onde fica Schoesntatt, na Alemanha. Tréveris é uma das dioceses mais antigas da Igreja Católica. Por estes dias estamos a preparar todas as actas para enviar a Roma. Há que fotocopiar, autenticar cada página, traduzir… Porque o alemão não é idioma reconhecido em Roma, decidimos pelo castelhano e temos de traduzir umas 20 mil páginas. E estamos à espera que o delegado diocesano escreva o relatório final. Espero que nos próximos meses ou no início do próximo ano vá tudo para Roma.
Uma vez em Roma, quais são os procedimentos seguintes?
Roma faz a etapa definitória do processo. Roma recebe tudo, investiga se está tudo de acordo com a lei e esta etapa termina com um decreto de validade. Depois, o processo fica a cargo de um membro da Congregação para a Causa dos Santos, que, comigo e uma equipa, procura em todas estas 100 mil páginas os prós e contras de uma beatificação. Daí sai um documento que pode chegar a duas ou três mil páginas e é submetido a oito teólogos que dão a sua opinião: “acreditamos que merece ser beatificado”; ou “dou a minha opinião se me esclarecem sobre como actuou Kentenich nesta ou naquela situação”. Se o documento é aprovado pela maioria, vai a oito cardeais ou bispos. Se estes o aprovarem, segue para o Papa, que assina o decreto de heroicidade de virtudes. Depois, falta uma última coisa: o P.e Kentenich tem uma grande fama de santidade; há muitos cristãos que pensam que é santo; investigamos a sua vida e chegamos a uma conclusão positiva; queremos que a Providência nos dê um sinal confirmando a nossa decisão.
Esse sinal é um milagre…
Se há um milagre, inicia-se outro processo independente, que acontece na cidade onde ocorreu o milagre. Roma aborda-o depois do processo de vida e de virtude. Pode tratar-se de um milagre já ocorrido e já investigado. Em Roma, são convocados cinco médicos para estudar o milagre, tal como oito teólogos mais oito cardeais e bispos. Se o milagre é confirmado, o Papa marca a data da beatificação.
Com a fama de santidade de Josef Kentenich, há algum facto que tenha as características do milagre?
A fama de santidade sede Kentenich está extraordinariamente difundida. Temos documentados 1,6 milhões de pedidos escutados a pessoas de 87 países. “O meu marido estava doente e recuperou”. “O meu filho perdeu a fé e agora recuperou”… Há muitos relatos de curas surpreendentes. Li mais de uma centena. Em alguns casos os médicos dizem que são milagres. Mas nenhum caso, até agora, preenche todas as condições. Um médico alemão entusiasmou-se muito com a cura de um bebé. Mas quando acabou de estudar o caso encontrou num livro de medicina estatísticas de curas de casos como aquele. Ou seja, acabou.
Conheceu pessoalmente o P.e Kentenich?
Conheci-o no final da sua vida. Eu era seminarista, tinha 26 anos. Mandaram-me estudar na Alemanha. O P.e Kentenich esteve separado de Schoenstatt, antes do Concílio Vaticano II. Regressou reabilitado no final do Concílio, primeiro a Roma, depois a Schoenstatt. Eu vi-o pela primeira vez no dia 29 de Março de 1966, às 19h30.
Era um homem fisicamente um pouco mais baixo do que eu. Muito cordial, muito humano, muito simples. Nenhum gesto espectacular. Sentíamo-nos muito bem ao lado dele. Tinha um grande sentido de humor. Gostava de rir. E nós sentíamos: este homem está muito perto de Deus. Quando ele estava nos Estados Unidos, separado da obra, um casal pediu-lhe que os casasse. A secretária perguntou: “Vocês conhecem o P.e Kentenich?” “Não não conhecemos, mas ouvimos três ou quatro sermões de domingo e ele prega como se tivesse vindo de conversar com Deus e nos contasse o que esteve a conversar com Deus”.
Ele celebrava a Eucaristia muito normalmente. Mas tinha tal convencimento de que Deus actuava… Uma vez ouvi-o, diante de uma pequena mesa: “Esta mesa existe. É real, posso tocá-la, vejo-a. Deus existe mais do que esta mesa, é mais do que esta mesa, é uma realidade, é um Tu, é um Tu, é um Tu”. E ficou como que a conversar com Deus. Tinha uma grande experiência de Deus e ao mesmo tempo era muito humano, cordial, interessado por cada pessoa. Recordava virtualmente cada um e cada conversa.
Uma vez disse-lhe: “Que memória que tem!” Sorriu, pegou na minha mão e disse: “Conheço os meus e os meus conhecem-me” – a frase do Bom Pastor.
Durante 14 anos, o fundador de Schoenstatt não foi compreendido pela Igreja. Teve de deixar o movimento. Porquê esta incompreensão?
Juntaram-se vários factores. Schoenstatt estava a crescer muito como movimento numa igreja muito organizada como é a alemã, onde não havia receptividade para movimentos novos. Havia desconfiança. Os bispos não compreendiam Schoenstatt. E Schoenstatt não compreendia os bispos. Schoenstatt era uma forma distinta de viver o cristianismo. O P.e Kentenich acentuou muito que a Igreja, mais do que instituição, tem de ser família que acolhe. Os sacerdotes têm de ser verdadeiros pais espirituais. Ele tinha uma grande capacidade de criar vínculos pessoais. A muitas autoridades isso pareceu perigoso. E ainda mais na Igreja alemã. Os vínculos pessoais não eram valorizados.
Por outro lado, ele defendia que havia que aceitar o desenvolvimento da modernidade com atitudes diferentes perante a ciência a técnica. Havia e há ateus e inimigos, mas igreja tem de tratá-los como irmãos. Isto foi antes do concílio.
No regresso do “exílio” nos Estados Unidos, foi acolhido por Paulo VI…
Regressou em Setembro de 1965, durante e quarta sessão do concílio. O Papa recebeu-o em audiência no dia 22 de Dezembro. Na noite de Natal, o P.e Kentenich regressou a Schoenstatt. O Concílio tinha terminado no dia 8 de Dezembro desse ano.
A partir daí, o movimento desenvolveu-se mais?
Com a aprovação, passou a haver uma atitude diferente, também no episcopado alemão. Todos os bispos estavam de acordo com o regresso do fundador. Disseram-no expressamente, respondendo a uma carta do presidente da conferência episcopal alemã.
Actualmente, onde é que o movimento é mais forte?
Neste momento há santuários como este [na Gafanha da Nazaré] em 33 países. O movimento é muito forte na Alemanha, – vai surpreender-se – Burundi (África Central), Brasil, Chile Argentina, Paraguai. A Argentina tem cerca de 14 mil cristãos comprometidos.
Tem uma visão mais internacional do movimento. Qual é o grande carisma da espiritualidade de Schoenstatt para as pessoas de hoje?
Uma das novidades é a concepção de Igreja como família, mais do que como instituição. A Igreja tem de ajudar a que cada um se sinta querido, respeitado, membro activo. Para isso é preciso que o Papa, os bispos e os sacerdotes sejam pastores, pessoas próximas, amistosas, com muito sentido do humano.
Outro contributo é a importância da Virgem Maria, não só a nível da devoção, mas como força de evangelização. Há que salvar a religiosidade popular e evangelizá-la. Maria leva a Cristo e ao Deus trino. O P.e Kentenich vivia em aliança com Maria.
O terceiro elemento tem a ver com a importância dos santuários como lugares de peregrinação, de recolhimento, de beleza.
Os santuários e as peregrinações são cada vez mais procurados. Nota-se em Schoesntatt?
Sim. Há santuários com extraordinárias correntes de peregrinos no Brasil, Chile, Argentina, Burundi. A Virgem congrega. É mãe e cria ambiente de família.
Nas conferências que está a fazer pelo país, o que tem contado do P.e Kentenich?
Conto os meus encontros com o P. e Kentenich nos três anos que vivi perto dele. Recordo especialmente um encontro pessoal, no dia 23 de Agosto de 1967. Conversámos 40 minutos quando eu era seminarista e estudava Teologia em Munster. Encontrei-me com um homem sábio, que escuta e dá conselhos porque tem muita experiência. Sabe o que Deus quer.
As conferências acontecem a propósito da preparação para o centenário da fundação de Schoenstatt, mas servem também para divulgar a causa da canonização do fundador…
Temos a consciência de que a beatificação e a canonização, sendo processos jurídicos, muito regulamentados, precisam também da nossa oração. Os santos são presentes da Igreja e de Deus. Há que recebê-los, rezar, pedir, valorizá-los.
Há dias, em Roma, foi beatificado João Paulo II. Depois, em Portugal, aconteceu a beatificação da Madre Maria Clara. A espiritualidade dos nossos tempos está a revalorizar os santos, que durante anos, até por influência das seitas, pareciam cair no esquecimento?
Necessitamos de santos. Se a Igreja quer anunciar o Evangelho e não pode mostrar que o Evangelho foi vivido por homens concretos, o Evangelho fica como teoria. Falamos do amor ao próximo, mas se não temos figuras como Francisco de Assis, não se concretiza. Precisamos do exemplo de homens e mulheres, com defeitos, certamente, que viveram o Evangelho. O evangelho é “vivível”. Os santos são sinais de que o Evangelho é concretizável, não uma utopia de pensamento lindos.
Estive na canonização de João Paulo II. Cerimónia bonita. Milhão e meio de pessoas., Impressionaram os peregrinos, o amor das pessoas a este grande Papa, as pessoas rezando… Muitas tinham dormido na Praça para agradecer o testemunho deste homem. Hans Urs von Balthasar disse que os santos são as respostas de cima às perguntas de baixo. Respostas de Deus às perguntas dos homens.
João Paulo II conhecia Schoenstatt?
João Paulo II tinha um grande carinho por Schoenstatt. Em 1980, em Fulda, convidou todos os seminarista para agradecer por insignes figuras sacerdotais alemãs, como Clemens Von Galen, bispo que se opôs a Hitler, o teólogo Romano Guardini e o P.e Kentenich, entre outros. Uma semana depois, porque tínhamos uma reunião, fomos a Roma e ele repetiu o agradecimento a Schoenstatt e ao que significa para a Igreja.
O Papa Bento XVI tem como secretária uma alemã Irmã de Maria, da família schoenstattiana…
Já era secretária de Josef Ratzinger quando era apenas cardeal. Quando foi eleito, pediu-lhe que continuasse a trabalhar com ele, para todas as coisas de línguas alemã.
Se a secretária fosse portuguesa, os portugueses tenderiam a pensar que tinham em Roma uma boa cunha…
(Risos) Não lhe peço nada, nem sequer uma entrada para uma audiência. Absolutamente nada.
O processo de canonização do fundador está em andamento. Há outros filhos de Schoenstatt que estão mais adiantados no reconhecimento da santidade?
Sim. José Engling (1898-1918), que morreu no campo de guerra, em Cambrai. Está em processo de beatificação. O mesmo se passa com Maria Emilie Engel (1893-1955), que cooperou na fundação das Irmãs de Maria. Carlos Leisner (1915-1945), de Munster, que pertenceu também a um movimento tipo Acção Católica e foi grande opositor de Hitler como dirigente juvenil. Foi ordenado padre por um bispo francês no campo de concentração Dachau. Tinha como lema no grupo de Schoenstatt “Encadeado mas livre”. Beatificou-o João Paulo II no Estádio Olímpico de Berlim, que Hitler mandou construir para mostrar a superioridade da raça alemã.
Um chileno, Mario Hiriart (1931-1964), engenheiro, está em processo de beatificação. E João Luiz Pozzobon (1904-1985), brasileiro, iniciador da campanha de Virgem Peregrina – os pequenos santuários que andam de casa em casa. Pai de sete filhos, era um homem muito simples, camponês, que escrevia cartas aos papas e aos bispos para falar de importância da família e da Virgem Maria. Um homem extraordinário.
