Pintor João Pinto Calisto

Aveirenses Esquecidos João Pinto Calisto, natural de Aveiro (1929), foi um dos mais reputados mestres pintores de azulejaria artística de Aveiro, tendo atingido o topo na Fábrica Aleluia.

João Pinto Calisto, filho do escultor João dos Santos Calisto, foi um exímio pintor de painéis de azulejos, tendo alcançado o topo da carreira como mestre pintor na Fábrica Aleluia, onde liderou a secção de pintura artística.

Desde cedo manifestou apetência pelas artes, tendo iniciado a sua actividade como marceneiro e entalhador, porque “gostava da talha”, afirma o artista, aprendendo com o entalhador Álvaro Moreira, que “tinha a sua oficina no cruzamento da Rua Direita com a rua que vem do Museu”, em Aveiro. Um dia, deu-se a mudança. Explica João Pinto Calisto: “Apareceu um senhor, João Marques de Oliveira, conhecido do meu pai, que era responsável pela secção de pintura de painéis na Aleluia. Eu fui trabalhar para ele, não na fábrica, mas a pintar barquinhos moliceiros em barro, que ele vendia na sua loja. Foi assim que eu comecei a aprender a pintar em cerâmica, pintando também uns azulejos e outras coisas, mas sempre na casa desse senhor. Um dia, disse-me: «Vais para a Fábrica Aleluia», E, a partir daí, estive lá até me reformar, aos 65 anos de idade”.

Na Aleluia

“subiu todos os degraus”

Na Fábrica Aleluia, João Pinto Calisto iniciou a sua actividade na azulejaria artística como aprendiz, primeiro “a escolher e a colocar os azulejos nos cavaletes, que vinham com os desenhos em papel vegetal que eram colocados em cima dos painéis, para depois serem pintados. Nos painéis que tinham recortes, os azulejos eram cortados à mão com turquês, serra de dentes finos e grosa, trabalho que eu também fazia no início”, sublinha o pintor. Algum tempo depois, começou a fazer “umas coisinhas de pintura”, pelo que saiu do recorte e passou para a pintura.

Em simultâneo com o trabalho na Fábrica, João Pinto Calisto frequentava a Escola Industrial de Aveiro, tendo como professor de desenho e pintura Gervásio Aleluia, um dos responsáveis da Fábrica Aleluia, que lhe chegou a dizer: “O que é que tu andas aqui a fazer? Tu, na fábrica, fazes trabalhos mais complicados do que estes. Vai-te embora, que eu dou-te as notas!”. “A partir daí, agarrei-me à pintura, na fábrica”, remata João Pinto Calisto.

Quando João Marques de Oliveira deixou a Fábrica Aleluia para ingressar nas Faianças S. Roque, Lourenço Limas ficou como responsável pela secção de pintura artística da Aleluia. “Como eu não tinha formação específica na área da pintura – explica João Pinto Calisto – estava sempre atento a tudo e punha-me atrás dos pintores mais velhos a ver como eles faziam, para aprender. E assim fui andando e aprendendo, até que cheguei a um ponto em que era eu que ensinava mesmo pessoas que andavam há mais tempo na fábrica do que eu”.

Nos primeiros tempos de pintura na Aleluia, apesar de João Pinto Calisto gostar muito da pintura ornamental, dedicando-se sobretudo a pintar lambris não figurativos, cercaduras de painéis e relevos, também queria experimentar a pintura figurativa, até que um dia pediu ao Lourenço Limas, para o deixar pintar um painel. “Pintei uma Nossa Senhora de Fátima com os pastorinhos e cordeirinhos. Quando ele viu o painel pintado disse-me: «Já devias estar a pintar». Mas continuei como responsável pela equipa da pintura ornamental”. Entre os trabalhos que esta equipa executou contam-se todas as cercaduras dos painéis artísticos que decoram a fachada e o interior da Igreja de Válega (Ovar). Ainda nesta igreja, pintou também um dos painéis.

Pouco depois, João Pinto Calisto passou para a pintura figurativa, até chegar a “braço direito” de Lourenço Limas, ficando a seu encargo os acabamentos dos painéis e a execução de pormenores mais delicados, o que para ele não era muito agradável. “Não me sentia bem a mexer e acabar os trabalhos dos meus colegas”, diz.

Quando Lourenço Limas adoeceu, João Pinto Calisto, então com perto de 40 anos de idade, assumiu provisoriamente a direcção da secção artística, passando a chefiá-la após a morte daquele mestre pintor, cargo que manteve até meados da década de 1990, quando se reformou, aos 65 anos de idade.

Escola de pintura

João Pinto Calisto implementou a criação de uma verdadeira escola de pintura, de modo a que quem começasse um painel teria de terminá-lo com qualidade. A par disso, foi com ele que os artistas da Aleluia começaram a assinar os painéis que pintavam, valorizando o trabalho dos artistas. “Eu exigia o máximo dos meus alunos, para que eles se tornassem bons artistas”, alguns dos quais ainda estão em funções na Aleluia.

Se João Pinto Calisto já desenhava alguns painéis que depois pintava quando assumiu a direcção artística, e como era tradição da Aleluia, passou também a desenhar a grande maioria dos painéis executados na fábrica, tanto os de criação livre como os que obedeciam aos “livros de estilo” existentes na secção: Gótico, Barroco, Rococó, Arte Nova, entre outros.

Na secção de serigrafia, João Pinto Calisto acabou com o decalque, dando início à estampagem directa no azulejo com acabamento manual, usando tintas próprias, idênticas às que então eram usadas nas porcelanas. “Ganhei tanto gosto a trabalhar com aquele tipo de tintas, que cheguei a pintar painéis com tintas dessas, que pareciam tinta a óleo. Em alguns desses painéis juntei esmalte cerâmico grosso (vidro já cozido, não confundir com tinta de esmalte), criando relevos e efeitos especiais que eram impossíveis de fazer na azulejaria tradicional, com tinta de água”, explica o artista.

Na Aleluia, o artista pintou inúmeros painéis, os quais se encontram sobretudo no interior de igrejas e casas particulares, um pouco por todo o país, incluindo Açores e Madeira. A par disso, também restaurou painéis da Aleluia, alguns deles numa igreja em Ponta Delgada.

Aguarelista

e exímio retratista

João Pinto Calisto também se dedicou à pintura artística sobre tela (acrílico) e sobre papel (aguarela), sendo um exímio retratista e fisionomista.

Aprendeu a arte da pintura em aguarela com o pai, que era fotógrafo de profissão.”Nessa altura, não havia fotografia a cores. Quando alguém queria fotos a cores, o meu pai aguarelava-as, isto é, pintava-as com aguarela. E foi assim que eu comecei a pintar também aguarela”, refere o artista.

Cardoso Ferreira