Questões Sociais Nos dois artigos anteriores foi feita referência a dois erros gravíssimos: o menosprezo da entreajuda e do voluntariado social de proximidade; e a deficiente articulação deste com as instituições, as autarquias locais e os órgãos de soberania. Um outro erro, não menos grave, consiste no negacionismo de problemas e potencialidades sociais.
À primeira vista, é notoriamente injusta a afirmação de que existe negacionismo dos problemas e potencialidades sociais: com efeito existem estudos regulares sobre a pobreza, desde pelo menos os anos 80 do século passado; abundam estudos e notícias acerca de problemas sociais desde, pelo menos, o século XIX; e, ao longo de toda a história do país, nunca faltaram iniciativas de acção social baseadas na forte consciência dos respectivos problemas. As políticas e práticas sociais têm como base estudos vários bastante aprofundados…
Porquê falarmos de negacionismo? – Por três razões fundamentais: o abstraccionismo, o abuso do estereótipo e o reducionismo corporativo. O abstraccionismo consiste na substituição da realidade por abstracções; neste caso, a realidade humana e social. As pessoas são substituídas por números; e o respectivo conhecimento científico e político é feito, em geral, com base em censos, inquéritos, teorias, pressupostos vários…Tudo isto é necessário, embora pudesse ser mais humanizado; em contrapartida, é estranho que não se difundam estatísticas sobre os casos sociais atendidos nem se confrontem as vias de solução com as necessidades; também é estranho que algumas situações mais graves, tais como os/as «grandes dependentes», nem sequer sejam objecto de tratamento estatístico difundido. No que se refere às potencialidades de solução, menospreza-se o potencial da entreajuda e do voluntariado social de proximidade, e «ignora-se» o esforço heróico de inúmeras famílias que, a partir de situações de pobreza grave, souberam sobreviver e até atingir níveis de bem-estar elevados…
O abuso do estereótipo e o reducionismo corporativo justificam análise autónoma que será feita noutra oportunidade, fora deste conjunto de artigos.
