“As pessoas precisam de estar, conversar e partilhar com o padre”

P.e João Paulo Sarabando Marques, 49 anos, é pároco de Macinhata e Valongo do Vouga. Comemorou no dia 6 de Julho 25 anos de ordenação presbiteral. O dia foi assinalado por uma celebração em Macinhata do Vouga. No domingo, 10 de Julho, ambas as comunidades celebraram as bodas de prata sacerdotais em Valongo do Vouga. Entrevista conduzida por Jorge Pires Ferreira.

CORREIO DO VOUGA – Como está a viver estas comemorações, que tiveram ontem [entrevista realizada no dia 7 de Julho] um momento muito significativo com a celebração da Eucaristia em Macinhata do Vouga (ver página 5)?

JOÃO PAULO SARABANDO MARQUES – Não sou muito de datas nem de celebrações. Esqueço-me do meu dia de anos… Mas penso que tem algum significado assinalar este momento. Parece-me que pode ser testemunho para os mais novos, dado que para mim faz todo o sentido ser padre. Sou muito feliz como padre e como pessoa. De algum modo isso pode servir de incentivo para outros.

Na celebração de ontem, além de diáconos, padres e leigos, estiveram três bispos: D. António Francisco, D. António Marcelino (que presidiu, a pedido de D. António Francisco), e D. António dos Santos. Surpreendeu-o?

Não porque fazia sentido. De algum modo, quem me acompanhou mais, ao longo destes anos, foi D. António Marcelino, embora eu tivesse sido ordenado por D. Manuel de Almeida Trindade, que, como disse na celebração, é o meu pai na fé. Foi um homem que me marcou muito.

Foi o último padre da Diocese de Aveiro ordenado por D. Manuel (1918 – 2008)?

Não tenho bem a certeza. Esteve o D. António Marcelino, que na maior parte deste tempo foi quem me acompanhou, quem me incentivou, quem me abriu perspectivas e empurrou para muitas das coisas que fui fazendo. Esteve D. António Francisco, Bispo da Diocese. É o meu bispo. E o D. António dos Santos, que é da minha terra. Fazia todo o sentido que o convidasse e eu sei que ele teve muito gosto em estar. Ontem [6 de Julho] brinquei na celebração dizendo que D. António dos Santos foi baptizado na paróquia de Vagos porque a de Santo António não existia na altura. Sempre que ele me encontrava, dizia: “Tu lembra-te que fomos baptizados na mesma pia”. Há uma afinidade quase familiar. De resto, além da família próxima, não convidei mais ninguém. Mas disse às pessoas que ia celebrar porque a minha família, neste momento, são as pessoas com quem estou a trabalhar.

Neste momento está nas paróquias de Macinhata e Valongo do Vouga, mas ao longo do seu trabalho, passou por quase todo o arciprestado de Águeda…

Fui ordenado quando já estava em Ílhavo a trabalhar como diácono. Fui ordenado no Santuário de Vagos.

Porquê em Vagos, quando imediatamente antes e depois as ordenações foram sempre na Sé?

Eu tinha trabalhado no Secretariado Diocesano da Pastoral Juvenil. Nesse dia (6 de Julho de 1986), a malta jovem estava em Vagos, havia lá um grande encontro, pelo que a ordenação foi aprazada para esse local e dia. O Santuário faz todo o sentido para mim, que sou de Vagos. As pessoas dali têm uma relação muito próxima com o santuário. Os meus pais casaram lá. Havia e ainda há o costume de quando as mães dão à luz irem lá apresentar os filhos. Também lá fui apresentado pela minha mãe.

De Ílhavo, após três ou quatro anos, fui para Águeda, onde estive um ano. Depois, D. António Marcelino desafiou-me a ir para Recardães, onde havia bolsas de pobreza muito graves, por causa das cerâmicas de barro vermelho, incluindo prostituição infantil. Fiquei também com Castanheira do Vouga e dava aulas na Escola Secundária Marques de Castilho. Entretanto, fiquei com Barrô, por doença do P.e João Paulo Capela, e a seguir com Espinhel, devido à doença do P.e Manuel Ferreira. Mais tarde, fiquei com Valongo. Entretanto, já tinha deixado Barrô e Espinhel. Depois adoeceu o P.e Augusto e eu fiquei com Macinhata. Agora estou com a parte norte do arciprestado de Águeda.

Referiu a pobreza. Para si, o lado mais social da pastoral sempre foi importante, tendo estado na origem do Centro Social e Paroquial de Recardães…

Nasceu para dar resposta às bolsas de pobreza. Não faz sentido que a gente celebre e reze se isso não tem consequência na vida das pessoas. E a vida das pessoas começa pelo comer, pela dignidade humana – coisas que são básicas. A minha inclinação para esse tipo de coisas mantém-se. Em Recardães, a obra tornou-se gigantesca por causa das circunstâncias. Há momentos em que as coisas funcionam. Naquele caso funcionou. A transformação foi de facto muito grande. Na altura, abarcámos Recardães, Barrô, Aguada e começamos a transportar crianças e mães para dar formação, para que pudessem sair da situação de pobreza em que estavam. Nunca tive da intervenção social uma noção assistencialista. Na linha da doutrina social da Igreja, nós existimos para promover e não para assistir. O trabalho que não for feito na linha da promoção é trabalho deitado ao lixo.

Hoje os problemas são outros. Há pobreza nas suas actuais paróquias?

É muito complicado, sobretudo em Valongo. Macinhata tem umas situações de droga, de famílias desestruturadas, mas são ilhas. Em Valongo, o problema é não haver emprego. Há muitas pessoas em situação precária. Os mil e muitos postos de trabalho que havia desapareceram devido a falências. As empresas que deram ânimo à freguesia desapareceram. As pessoas subsistem com a pequena horta, os animais que criam em casa. Vão vivendo, mas não se produz riqueza. A paróquia é pobre. Quando assumi Valongo, pareceu necessário intervir ao nível das famílias e criámos em parceria com a Segurança Social um serviço de intervenção comunitária, que mantemos com técnicas e a boa vontade do voluntariado. O serviço acompanha perto de 150 famílias nas duas paróquias, ajudando a aceder aos direitos básicos, ao rendimento mínimo e outros apoios. Fornece alimentos em parceria com o Banco Alimentar, dá vestuário, procura emprego, dá formação, sobretudo às mães, para saberem funcionar com a economia doméstica, por exemplo. A mãe é a estrutura da casa.

O P.e João Paulo gosta de dar protagonismos aos leigos. Dá liberdade e poder para fazerem o que devem fazer. É uma opção consciente?

É sobretudo uma opção de vida cristã. Do Concílio para cá, já toda a gente deve ter percebido que nós somos todos povo de Deus. Não há castas. Costumo dizer às pessoas: “Eu só sou o padre”. Ou seja, a Igreja não começa nem termina em mim. Eu faço parte do povo de Deus e tenho funções específicas. Por princípio, sou eu que presido à Eucaristia e a outros sacramentos, mas não tenho que ser eu a tomar conta da catequese ou da caridade. Não sou eu que tenho de tomar conta da liturgia. Aqueles que fazem parte da comunidade têm responsabilidades como as minhas, sendo diferentes. O que temos de fazer? Entre nós, coordenar o funcionamento e cada um assumir as responsabilidades na área que lhe compete. Quando o padre assume demasiado protagonismo, se o padre desparece, a Igreja desaparece. O padre leva a Igreja consigo. Costumo dizer que não sou padre de lado nenhum. Sou padre da Igreja de Jesus Cristo. E estou ao serviço da Igreja, que não está só em Valongo ou Macinhata, mas está por aí, em todo o lado. Neste momento, estou pároco destas terras. Mas não sou. Ser, sou da Igreja.

Isso faz com que os leigos assumam as suas responsabilidades.

Se o padre que me substituir for inteligente, só tem que entrar no carril e manter-se na sua posição de padre. Tenho algum orgulho nessa capacidade. Às vezes até parece que empurro o trabalho para os outros. Mas, ultrapassando as capacidades das pessoas, as pessoas perdem dignidade e o lugar. E é preciso que tenham lugar, vez e voz. Mas também não deixo que ninguém ocupe o meu lugar. Há situações em que sinto que se fosse eu a fazer poderia fazer melhor e mais rápido. Mas se não forem as pessoas a fazer, não é amassado por elas. Eu sou fermento desta massa que é a igreja que está aqui. Fermento sem massa, não faz pão. Pão com muito fermento fica balofo. É preciso contenção e ter a paciência de dar às pessoas o tempo necessário para que possam levar por diante os projectos a que nos propomos. Não me tenho dado nada mal com isto, antes pelo contrário.

Também é conhecido pela sua frontalidade…

…Alguns até lhe chamam má educação. Não sou muito de ter indiferenças. As pessoas, perante mim, têm posição. Ou gostam ou detestam. Não há meios termos. De facto, tenho uma personalidade vincada. Sei muito bem o que quero. Procuro gastar muito tempo a amassar o que quero, para não ter explosões momentâneas. Mas ao saber o que quero, procuro afirmá-lo com toda a clareza de que sou capaz. Não tenho muito jeito para escolher palavras. Não faz parte da minha idiossincrasia. Nem sempre tenho razão. A idade também traz isso. Eu já tive razão.

Já achou que tinha sempre razão?

Já. Agora nem por isso. E já me deslumbro com a razão dos outros, que é uma coisa que só se aprende com a idade. Por mais que queiramos, um homenzinho novo não é capaz de apreciar a razão dos outros. Mas eu já sou.

O que mais aprendeu com a idade?

Alguma maturidade interior e exterior. Há adolescentes com 50 anos, se nunca tiveram vontade de crescer. Se eu sou um bocado criança e adolescente nalgumas coisas? Sou. Mas sou por opção, porque se deve manter esse lado em algumas coisas. Mas a minha forma de olhar o mundo e o que está por detrás das coisas mudou. Tenho a noção clara de que consegui adquirir isso e tenho de dar graças a Deus pela diversidade e riqueza da vida que tenho tido. Experimentei situações muito diferentes, contactei com muitas pessoas. Conheci o mundo desde muito novo. Digo aos pais que deixem os filhos viajar…

Também viajou quando era novo?

Comecei a sair de Portugal e a viajar pela Europa muito novo, à minha custa, quando era seminarista. Os meus pais pagavam o bilhete de inter-rail e o resto eu ganhava aqui e acolá para ir andando, nas férias, que eram de três meses, uma imensidão de tempo. Só não fui à Rússia, mas fui a alguns países de Leste: Polónia, Checoslováquia… Apanhei maçãs na Escócia, lavei pratos no Luxemburgo, fiz vindimas no sul de Espanha. Ganhei a noção de que o mundo não é bem a minha aldeia. É um bocadinho maior. E aquilo que eu absolutizava podia ser relativizado. Se passo a fronteia para o lado de lá, ganho uma abertura para poder encarar a vida de outra maneira, para ir fundando as raízes num espaço maior. Uma árvore que cresce num vaso é sempre uma árvore atrofiada.

É já um dos padres há mais tempo no arciprestado de Águeda. Como é a relação com os outros colegas do arciprestado?

Para além de padres, somos amigos. Tenho muito orgulho nisso e é importante que também demos testemunho por esse lado. Às vezes não há entre os padres entrosamento, diálogo, partilha e provocação mútua. Aqui há. Somos amigos, trabalhamos bem em conjunto. Somos muito diferentes, mas também passeamos, jantamos juntos na Quinta-feira Santa, fazemos a nossa ceia no Natal. As nossas reuniões de clero arciprestal terminam sempre com um almoço. Pode não ser muito, mas é um momento em que estamos juntos, brincamos, às vezes dizemos coisas sérias e até saem iniciativas. Funcionámos muitíssimo bem. Gosto do ambiente do clero arciprestal.

Como diz, “está” pároco de Macinhata e Valongo. Tem projectos para o futuro?

Não faço projectos. Melhor, os meus projectos são em função do trabalho que tenho actualmente. E aí tenho muitos. Quanto a dizer se quero isto ou se vou para acolá, nada. Isso depende pura e simplesmente do bispo e do diálogo que o bispo tiver comigo. Mantendo eu à cabeça a disponibilidade para tudo, desde que avaliado em diálogo. Se me pedirem uma coisa que eu ache que não sou capaz de fazer ou que não me faz feliz, tenho de dizer com clareza e não o aceito. Se me lançarem um desafio novo de algo que acho que sou capaz de fazer, aceito.

Começou por afirmar-se feliz como padre. A vocação sacerdotal é importante para o mundo?

Muito importante. Aliás, se há algum problema no mundo de hoje, é a falta de lideranças. Não só na Igreja, mas sobretudo na sociedade. Perdemos as grandes referências. A Europa é um sonho de pessoas que tinham ideias claras. Mas hoje não temos lideranças fortes. A Igreja precisa de liderança por parte dos que apesar de tudo ainda são rosto da Igreja. O padre é rosto da Igreja. Se há algo que me preocupa é o facto de estarmos assoberbados por trabalho e não termos tempo para as pessoas. Isso é muito mau. As pessoas precisam de estar, conversar e partilhar com o padre. Às vezes é mais difícil encontrar o padre do que o presidente da câmara. Uma vez, D. António dos Santos disse-me: “Vou-te dizer quais são os três segredos para ser um bom pároco” – porque ele foi. É raro encontrar um bispo que tenha passado por essa situação. São mais de estufa, o que às vezes mau. Quem comanda tropas tem de saber o que é a tropa. Uma parte substancial de nós somos párocos. E o D. António dos Santos disse-me: “Primeiro, conhecer as pessoas. Segundo, conhecer muito bem as pessoas. Terceiro, conhecer muito bem as pessoas e dar-se bem com elas”. Ao longo destes 25 anos percebi claramente isso. Quando se consegue estar próximo, não só não se fala de cor, porque se leva para a celebração aquilo que é da vida, como temos a solidariedade delas. Sentem-se comprometidas connosco e com os nossos projectos. Tenho procurado cumprir isto.