João dos Santos Calisto, escultor

Aveirenses Esquecidos João dos Santos Calisto foi um dos mais exímios escultores aveirenses, apesar de ser autodidacta e de se dedicar à escultura apenas nas horas vagas, já que profissionalmente foi fotógrafo na casa Henrique Ramos.

A freguesia da Vera Cruz foi o seu berço, onde nasceu no dia 11 de Setembro de 1905,tendo falecido na freguesia da Glória, no dia 30 de Novembro de 1946, com apenas 41 anos de idade.

Um dos filhos de João dos Santos Calisto – João Pinto Calisto – seguiu as pisadas artísticas do pai, dedicando-se à pintura em azulejo, tendo atingido o topo como mestre pintor e responsável, durante décadas, da Secção de Pintura de Azulejaria Artística na Aleluia, empresa de onde saiu no ano de 1994, quando completou 65 anos de idade.

Como muitos artistas aveirenses, também João dos Santos Calisto foi aluno do escultor Romão Júnior e do arquitecto aveirense Silva Rocha, na Escola Industrial e Comercial de Aveiro.

Das muitas esculturas que saíram das mãos de João dos Santos Calisto, o filho destaca os retratos que o seu pai fez da mãe dele, do pai e da irmã. “Os dois primeiros, são em barro cozido e depois pintado, enquanto o da minha tia é estanhado em gesso branco. São autênticos retratos. Esses três bustos estão em casa da minha tia, em Torres Novas”, explica João Pinto Calisto.

Apesar de o pai ter morrido quando João Pinto Calisto tinha 16 anos de idade, este lembra-se de ver o pai fazer o busto de João Aleluia, fundador da Fábrica Aleluia, e de achar graça à “máquina” que o pai tinha e que era “uma cadeira em cima de uma espécie de plataforma, com rodas, que ele ia girando, para apreciar a fisionomia dos modelos em todas as suas posições”.

Outro busto que João Pinto Calisto se recorda de ver o pai fazer foi o de Álvaro Lé, que “depois de vir do Brasil, construiu o primeiro campo de futebol que houve em Aveiro, no bairro com o seu nome que então existia junto à Sé de Aveiro, pai do dono da Sapataria Lé, local onde esse busto está exposto”. Recorda-se também de uma escultura que o pai fez em pedra.

Para além dos bustos, João dos Santos Calisto esculpiu em barro inúmeras imagens de santos. O filho ainda tem em casa um S. João. O escultor também praticava a aguarela, técnica que usava para colorir as fotos, já que nessa altura não havia fotografia a cores. As fotografias eram coloridas à mão.

Entre os grandes amigos do escultor, o filho aponta o jornalista João Sarabando. “A casa onde o meu pai vivia pertencia ao pai dele, localizada nas costas do Cemitério Central, entre este e a Sé, no local onde hoje existe um café”, esclarece.

Cardoso Ferreira

“Grande fisionomista” discreto

Depois de considerar João dos Santos Calisto como “um grande fisionomista”, o aveirógrafo João Sarabando escreveu, na revista “Aveiro e o seu Distrito”, de Dezembro de 1975, que apesar dos seus trabalhos artísticos serem “obras escultóricas que, promovendo atenções e até admirações, não têm paradoxalmente o condão de trazer à tona, como seria natural, o nome do seu autor. Àquela tona onde sobrenadam tantas mediocridades dignas do justiceiro esquecimento, pois que, afinal, só mamarrachos operaram”.

Mas como rememorar o artista João dos Santos Calisto se as portas do Museu de Aveiro “apenas se abririam mais tarde e de maneira discreta, no “post mortem”? Mas como querer ouvir falar dos méritos de Calisto, se Calisto era extremamente pobre, extremamente modesto e, apesar de tudo, extremamente vertical, talvez orgulhoso, até, para mendigar a esmola de uma singela notícia?!”, questionava João Sarabando, que listou os seguintes bustos concebidos por João dos Santos Calisto: Álvaro Lé, Wagner (cópia), Silva Rocha, Alberto Souto, Maria da Guia, Santos Calisto, Virgínia Calisto, Luís Maltês, António da Benta, José de Pinho, Jaime de Magalhães Lima, João Aleluia, Joãozinho, Pereira da Cruz, Homem Cristo, Schubert (cópia), Leninha (ao dois e aos dez anos), professor Moreira, S. Pedro, ti Zé-nhã, João Evangelista de Lima Vidal, Camilo, Eça, Abel Salazar, esposa de António Nunes Rangel e “Agonia”. A esses, juntou as seguintes obras escultóricas: cabeças de Cristo e da Virgem, duas imagens de S. João Baptista e uma de S. Domingos (cópia de escultura existente no Museu de Aveiro), medalhão com uma cabeça de Cristo, “portrait-charge” de Abel Salazar, “Miséria” (grupo de quatro figurinhas) e alguns tipos de feição regional, medeando entre dezoito e vinte centímetros de altura, como “Pescador”, “Tricana Antiga” e “Tricana Moderna”.

Ainda de acordo com João Sarabando, a maioria dos trabalhos escultóricos são em barro cozido, por vezes patinado, alguns dos quais foram vazados em bronze, como aconteceu com o busto maior de Homem Cristo, inaugurado solenemente na antiga Associação Comercial, o busto de António da Benta, oferecido pelo Rotary Clube, mediante cópia do original, propriedade do Sport Clube Beira-Mar, ao Museu de Aveiro, o medalhão de Cristo, aposto num túmulo do Cemitério Central, e o “portrait-charge” de Abel Salazar, que o livreiro portuense António Lello destinava ao museu aveirense, e o busto de Camilo Castelo Branco. O busto de Jaime de Magalhães Lima foi fundido em gesso, enquanto a peça com o título “Agonia” foi talhada em pedra de Ançã.

Para João Sarabando, os três bustos então existentes no Museu de Aveiro deviam, “só por si, constituir cabedal bastante para, no conspecto das artes plásticas, imporem instantaneamente qualquer nome, aureolando-o de respeitos. Arrancando-o, numa palavra, ao anonimato convencionado e atroz, tão atroz que ainda hoje, grudativamente, o envolve”. C.F.