ANTÓNIO MARUJO
Jornalista
As BUGA (Bicicletas de Utilização Gratuita de Aveiro) foram uma boa ideia. Correm o risco de acabar, em breve, no inferno das boas intenções.
Houve problemas, no início, é certo, incluindo o roubo de algumas bicicletas. Mas as soluções encontradas complicaram de tal modo a sua utilização que, entre isso e a redução do âmbito do seu uso, a BUGA já é quase só um tosco bilhete turístico da cidade.
Em plena Semana Europeia da Mobilidade, é interessante comparar o que se passa em Aveiro, com a possibilidade de utilização de bicicletas em outras cidades pela Europa fora. Podemos concluir que só falta alguma criatividade para dar às bicicletas gratuitas uma dimensão digna da ideia original e pioneira que Aveiro teve.
Em Paris ou Barcelona, por exemplo, os postos onde as bicicletas podem ser retiradas ou deixadas estão espalhados por toda a cidade. Tome-se o caso da capital francesa (onde, cúmulo da ironia, circulam pelo menos 22 mil bicicletas fabricadas por uma empresa de Aveiro): para que a bicicleta possa ser utilizada, a pessoa paga uma caução de 150 euros (que pretende inibir o roubo da bicicleta e é devolvida no momento em que termina o contrato) e um bilhete (que vai desde 1,70 euros por 24 horas até aos 39 euros por um ano, na taxa mais cara).
A pessoa pode depois, através de um cartão magnético, usar qualquer veículo num dos muitos pontos da cidade, podendo retirá-la e entregá-la onde lhe der mais jeito. As limitações de horário são apenas em função do uso que o utilizador pretende dar à bicicleta. Esta constitui, assim, um meio de transporte disponível sempre que a pessoa pretende e onde quer que esteja.
Em Aveiro, para andar de BUGA, tem que se ir à respectiva loja (uma única), entre as 9h e as 19h de segunda a sexta (fins de semana e feriados, 10-13, 14-19). É preciso deixar um documento de identificação e é obrigatório ter que a entregar no mesmo local. Na prática, portanto, a bicicleta serve apenas para passear um pouco pelo centro da cidade.
O facto de não haver mais que um posto, como no início, não permite utilizar a bicicleta como meio de transporte para deslocações. Basta pensar que, numa cidade com milhares de estudantes, a existência de postos na zona da universidade e das escolas permitiria criar outros hábitos nas deslocações dentro da cidade – e, ao mesmo tempo, facilitar a vida a muitos desses estudantes, na deslocação entre a residência e o lugar de estudo. Aliás, a Universidade até já tem a sua parte, com as estruturas para parquear bicicletas e a ciclovia dentro da cidade universitária.
Claro que é possível fazer-se algo de diferente com as BUGA. Uma cidade como Aveiro merece soluções que a tornem ainda mais agradável e aprazível, mais humana e menos poluída. O uso da bicicleta, numa região que já produziu milhares delas, seria um dos caminhos a incentivar para chegar a esse objectivo.
