Vergonha ou medo?

O apóstolo Paulo persistentemente insistiu que fôssemos fiéis ao Evangelho, instando oportuna e inoportunamente, corrigindo, ensinando…

Às vezes fico com a sensação de que, para “atrairmos fiéis” douramos a caminhada cristã, vestindo-a de roupagens que a tornam fábula, bem mais fácil de acolher do que a Verdade.

Ao ouvir relato de martírio de cristãos, ficamos, muitas vezes, com a impressão de que isso foi coisa do passado. Ou então é facto que acontece em terras distantes de “bárbaros”. Verdade é que, se andamos atentos às notícias, bispos, padres, religiosos e religiosas, seminaristas e leigos, o cortejo dos mártires de hoje é impressionante. Ao que parece, cada cinco minutos (!) um cristão é sacrificado pela fidelidade a Jesus Cristo.

Bem sei que algumas das situações se prendem com roubos. Mas seguro é que essas pessoas, arriscam a sua vida para estarem ao serviço da Fé em lugares menos “democráticos”. Enquanto muitos de nós procuramos não fazer ondas, omitimo-nos a toda a hora, para não sermos julgados, para não sermos caluniados, para não sermos perseguidos.

Veio-me até à ideia este “mau pensamento”: Será que não dizemos a última bem aventurança do evangelho de S. Mateus, para que o cristianismo não pareça tão exigente? Na verdade, dizer “Felizes sereis, quando vos insultarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo o género de calúnias contra vós, por minha causa. Exultai e alegrai-vos, porque grande será a vossa recompensa no Céu; pois também assim perseguiram os profetas que vos precederam” – Mt 5,11-12, pode assustar alguns.

Onde viver a fé exige uma opção exigente e arriscada, por fidelidade a Deus e por fidelidade ao Homem, pressente-se que, mesmo que seja menor o número de cristãos, subsistem alicerces seguros e abre-se futuro. Pelo contrário, nesta Europa indiferente e amorfa, que tolera “liberdade religiosa” condicionada, parece que a Igreja se entorpece numa exterioridade solene, sem vis interior, sem arrojo, sem coragem…

Para denunciar com eficácia é preciso viver com autenticidade! E muita coisa terá de “cair” deste espectáculo eclesial, para que as consciências sejam de aço e as atitudes destemidas. E desses será o Reino dos Céus!

Estaremos a ser fiéis ao Evangelho, pregando oportuna e inoportunamente, denunciando, corrigindo, com a autoridade de quem “anuncia o que lê, crê o que anuncia e vive o que crê”, sejam quais forem as consequências?