Morreu aos 27 anos, sem nunca ter professado como monge trapista, como tanto desejava. Deixou muitos pensamentos escritos que o revelam como místico.
As estrelas da música pop morrem aos 27 anos para se tornarem mitos. Janis Joplins, Kurt Corbain e mais recentemente Amy Winehouse não sobreviveram à fatídica idade, geralmente vítimas de excessos. Rafael Arnáiz também não passou dos 27 anos. Morreu no mês em que os completou, Abril de 1938. Mas o seu excesso não esteve em substâncias ou comportamentos desviantes. Se algum excesso teve, foi Deus, causa e meta de toda a sua vida, razão pelo qual o recordamos como um dos grandes místicos do século XX, embora quase desconhecido no nosso país.
O Irmão Rafael morreu como oblato do mosteiro de S. Isidro de Dueñas, em Palência, após várias complicações associadas a diabetes fulminante. A vida de monge foi breve, apenas quatro anos entrecortados por saídas do mosteiro por causa da doença, mas intensa. Nunca chegou a professar como trapense nem foi ordenado padre, tendo morrido como simples oblato, mas deixou escritos milhares de pensamentos, pequenos trechos (publicados em português sob o título “Saber esperar”, nas edições Paulinas), e memórias profundas nos colegas de mosteiro, alguns deles ainda vivos, como Fr. Maria Damián Yáñez Neira, que está no Mosteiro de Oseira, em Orense.
Rafael Arnáiz Báron nasceu no dia 9 de Abril de 1911, no seio de uma família católica bem cotada na cidade de Burgos. Os primeiros anos de escola foram passados com os padres jesuítas. Teve mais três irmãos e dois deles seguiram caminhos de consagração. Luís Fernando foi para a Cartuxa de Miraflores e Mercedes para as religiosas Ursulinas.
Ainda na infância, teve uma doença grave que obrigou a suspender os estudos. Após o restabelecimento, foi com a família ao Santuário da Virgem do Pilar, em Saragoça, facto que mais tarde recordaria como o momento em que se apercebeu da “singular predilecção” da Mãe de Jesus pela sua “alma inocente”.
A família muda-se para Oviedo, em 1923, e Rafael prossegue os estudos. Quer seguir arquitectura e entra na faculdade, em Madrid. Interrompe o curso por causa do serviço militar e regressa à faculdade, mas em Julho de 1932 faz um retiro no Mosteiro de S. Isidro de Dueñas e fortalece-se a convicção de que quer ser monge trapista. A decisão, embora surgisse no seio de uma família católica, surpreendeu a sociedade de Oviedo, onde o pai era engenheiro florestal e a mãe colaboradora na imprensa como crítica de arte. Rafael escreve: “Não me move para fazer esta mudança de vida nem tristezas, nem sofrimentos, nem desilusões, nem desenganos do mundo. Tenho tudo o que o mundo me pode dar. Deus, na sua infinita bondade, deu-me na vida muito mais do que mereço”.
No mosteiro, mostrou viver em grande felicidade com o seu hábito, o coro, os noviços e oblatos, a sua “amada comunidade”. A doença, no entanto, não permitiu que realizasse o sonho de ser monge. Escreve Fr. Maria Damián Yáñez Neira, companheiro de então: “Ele deu-se conta dos planos divinos mas, não obstante, a sua resposta foi «fidelidade total» e isso levou-o ao máximo da perfeição”.
Rafael Arnáiz morreu na manhã de 26 de Abril de 1938 e está sepultado no mosteiro onde não chegou a professar. Em 1989, na Jornada Mundial da Juventude de Compostela, João Paulo II disse que este jovem podia ser tomado como um dos grandes modelos da juventude. Beatificá-lo-ia em Roma, passados três anos. Bento XVI canonizou-se em 2009, afirmando: “Estando próximo de nós, continua a oferecer-nos com o seu exemplo e com as suas obras um caminho atraente, sobretudo para os jovens que não se conformam com pouco, mas que aspiram à plena verdade, à mais indizível alegria, que se alcança pelo amor a Deus. «Vida de amor… Eis a única razão de viver», diz o novo santo. E insiste: «Do amor de Deus tudo provém»”.
J.P.F.
Datas do Irmão Rafael
1911 – 9 de Abril. Nasce em Burgos
1923 – A sua família muda-se para Oviedo, nas Astúrias
1929 – Termina o ensino secundário e ingressa na Faculdade de Arquitectura de Madrid
1932 – Cumpre o serviço militar
1934 – 16 de Janeiro. Ingressa na Trapa de S. Isidro de Dueñas, em Palência
1937 – Outono. Depois de várias saídas e entradas, entra pela última vez na Trapa
1938 – 26 de Abril. Morre pouco depois de cumprir 27 anos
1982 – Milagre para a beatificação. Cura da jovem Cárnen Argüelle Merino, gravemente ferida no cérebro
1992 – 27 de Setembro. Beatificação em Roma, por João Paulo II
2000 – Milagre para a canonização. Cura da jovem madrilena Begoña Léon Alonso, após complicações num parto por cesariana
2009 – 11 de Outubro. Canonização por Bento XVI, em Roma
Dos escritos de Rafael Arnáiz
Se estivesse à fresca sombra de um choupo…
Hoje fomos atar feixes de trigo… Fazia bastante calor, e o lugar do trabalho encontra-se a um par de quilómetros do mosteiro… Uma coisa é comer pão e outra é andar entre os trigais, no mês de Agosto. São tão grossos os nossos hábitos… Com umas calças brancas e uma camisa, talvez estivesse bem…, claro que à sombra e a tomar refrescos…
Isto do Sol…, das “messes doiradas”…, do humilde segador…, é muito bonito para que haja versos de Gabriel y Galán…, e lê-los logo, à fresca sombra de um choupo… Caramba…, caramba com as “messes doiradas”. Enfim, menos mal que tudo isto do trigo e dos feixes é uma coisa muito bíblica…, e sempre é uma consolação.
Eu não tenho importância
Posso dizer que, no amor à Cruz de Cristo, encontrei a verdadeira felicidade, e sou feliz, absolutamente feliz, como ninguém pode suspeitar, quando me abraço à ensanguentada Cruz, e vejo que Jesus me quer, e que Maria também me quer, apesar das minhas misérias, das minhas negligências, dos meus pecados. Mas eu não tenho importância. Só Deus!
Estando próximo de nós, continua a oferecer-nos com o seu exemplo e com as suas obras um caminho atraente, sobretudo para os jovens que não se conformam com pouco, mas que aspiram à plena verdade, à mais indizível alegria. Bento XVI
