“A responsabilidade do bispo está ligada à sua missão, não ao cargo que exerce por um tempo”

D. António Marcelino acaba de publicar um livro de “testemunhos muitos ricos”, recebidos ao longo da vida, que, por não lhe pertencerem, estão agora à disposição de todos, para que se sintam “animados e atentos à acção de Deus”. O livro “Pedaços de vida que geram vida”, nas edições Paulinas, já está à venda e será apresentado publicamente, na Biblioteca Municipal de Aveiro, no dia 12 de Dezembro, pelas 18h. Nesta entrevista, o bispo emérito de Aveiro, fala de outros projectos de escrita, mostra-se preocupado com o esquecimento do Concílio Vaticano II e sublinha que sempre quis estar na praça pública com “propostas, críticas e opiniões sobre assuntos e acontecimentos de interesse social e eclesial”. Entrevista conduzida por Jorge Pires Ferreira.

CORREIO DO VOUGA – Fale-nos da génese deste seu livro, “Pedaços de vida que geram vida”. Há muito tempo que o tinha em mente?

D. ANTÓNIO MARCELINO – Fui-me apercebendo, ao longo da vida, que, por força do meu ministério, era beneficiário de testemunhos muitos ricos que, só por mim, nunca teria recebido. Não me pertenciam e havia que transmiti-los, para que outros se sentissem animados e atentos à acção de Deus nas suas vidas. Não bastava contá-los de vida voz. Era preciso que mais os pudessem conhecer. Por isso escrevi. Os testemunhos que vão chegando dizem do bem que os leitores vão beneficiando. A Igreja é, também, este partilhar.

Não refere, nos casos que conta, nomes de pessoas, lugares, datas, embora por vezes os leitores possam sempre supor que foi com este ou aquele que o episódio se passou. Porquê estas omissões?

Mantenho o anonimato possível dos protagonistas porque me pareceu que assim não se admirariam apenas as pessoas que os viveram, mas se tomaria consciência de que, em cada cruz que se leva, Deus é cireneu que no-la ajuda a levar. E é a Deus que é preciso estar atento. Maior atenção, quando se vê que Deus revela coisas grandes aos pequeninos e humildes e as esconde aos que presumem de si, do seu saber e da sua grandeza pessoal.

Podemos dizer que estas são as suas pequenas memórias. Pequenas, não certamente em importância. Pensa em escrever as outras, as que falam mais do seu protagonismo na diocese, no país, na Igreja em Portugal e no mundo?

Estas são memórias de grande densidade espiritual e quis, por isso, dar-lhe prioridade na publicação. Sim, tenho em mãos outros escritos de “memórias” de outro tipo por julgar que é importante que a história se faça também a partir de realidades vividas por aqueles que, em tempos bem determinados, nelas tiveram algum protagonismo.

Tem algum projecto de escrita mais imediato que nos possa revelar?

Estou a trabalhar uma conferência que proferi em 1962, poucos dias antes da abertura do Vaticano II, na I Semana Nacional de Estudos Missionários. Porque mantém, a meu ver, grande actualidade e é tema que tem de ser de novo reflectido, a Editorial das Missões aceitou a proposta da sua republicação, com alguma actualização e propostas para hoje. Também tenho como projecto publicar em 2012 a minha apreciação da recepção, pela Igreja em Portugal, do Vaticano II, cinquenta anos depois. Vou-me apercebendo que muitas coisas estão em aberto e que já se sentem nostalgias e se vêem tentações de voltar ao pré-Concílio. Isso preocupa-me muito.

Deixou a diocese há cinco anos. Nunca deixamos de ter contacto consigo, porque semanalmente escreve neste jornal. Em grandes linhas, como são agora os seus dias?

Certamente que estou mais livre para estudar, reflectir, avaliar a vida da Igreja, e isso me ajuda a rever a minha vida pessoal e o meu permanente compromisso apostólico, porque não se é bispo por um tempo, nem a dispensa do governo diocesano me poderia tornar um inútil ou um instalado, que julgo não ter sido. Embora não me falte que fazer, continuo disponível para o que me pedem, e penso que, nestes cinco anos, me podiam ter pedido mais. Não perco a ligação com as pessoas e as coisas, tento estar actualizado e disponível e os dias por vezes são já pequenos e breves, para o que desejo fazer e penso que é importante ou pelo menos útil que eu faça ainda.

Certamente já ouviu este comentário: Agora que está sem a responsabilidade de uma diocese está mais livre nas palavras que escreve e, logo, mais crítico, ou até mais profético. Concorda?

Sim, tenho ouvido esse comentário que tem alguma razão de ser. Porém, o que tenho dito e escrito, desde 1981, está publicado nos três volumes de “A vida também se lê” (o quarto está aí a rebentar). Aí se pode ver, de modo muito claro, que nunca deixei de estar na praça pública com propostas, críticas e opiniões sobre assuntos e acontecimentos de interesse social e eclesial. Não falo mais agora porque me sinto liberto de responsabilidade. A responsabilidade do bispo está ligada à sua missão, não ao cargo que exerce por um tempo. O profetismo do bispo tem a ver com esta missão e as suas urgências. Mais serenidade pode dar mais lucidez. Procuro que assim seja. Este é, talvez, ao lado da oração e da disponibilidade, o que mais posso dar à Igreja Diocesana e à Igreja em Portugal.