Fazer e ensinar

O apelo do Papa Bento XVI, na sua homilia feita no Porto, quando da vinda a Portugal, ganhou uma dimensão profética, tendo em conta os momentos difíceis que se foram agravando para muitos portugueses. Dizia o Santo Padre: “O cristão é, na Igreja e com a Igreja, um missionário de Cristo enviado ao mundo. Esta é a missão inadiável de cada comunidade eclesial: receber de Deus e oferecer ao mundo Cristo ressuscitado, para que todas as situações de definhamento e morte se transformem, pelo Espírito, em ocasiões de crescimento e vida”.

Das duas uma: ou não estamos capazes de recebermos de Deus Cristo ressuscitado, por inércia, por falta de disponibilidade, por coração empedernido…, ou somos incompetentes, rotineiros, inaptos para a ousadia e criatividade, surdos e cegos à voz dos oprimidos que clama uma Boa Notícia, desconfiados, incrédulos da Vida Nova que nos traz Aquele em Quem dizemos acreditar, apesar de “celebrarmos” o Seu nascimento.

Jesus fez e ensinou! Nós temo-nos ocupado demasiado a ensinar e pouco a fazer! Os mais belos discursos, declarações sonantes!… Só que o Espírito não passa no trovão ensurdecedor, nem na tempestade furibunda, nem no terramoto devastador. Passa, isso sim, na brisa suave, cujo efeito não é espectacular, mas é eficaz.

As situações de definhamento e de morte – das condições económicas, dos desvarios morais, da degradação social, da debilidade e ignorância espiritual… – multiplicam-se e agigantam-se. Muitas se transformam em ocasiões de crescimento e vida, é verdade. Mas a balança está bastante longe de se equilibrar.

Há tempos que são oportunos para decisões e atitudes proféticas. A hora presente reclama, entre nós, a coragem de seleccionar o indispensável, de acorrer ao urgente, de ser prático no uso dos recursos ao nosso dispor. Paulo VI seguramente que abdicaria hoje de novo da sua tiara em favor dos mais pobres, muitos Martinhos cortariam a sua capa para aconchegar os que passam frio, novos mendicantes percorreriam ruas e praças em busca de apoio para os necessitados. E nós? O que fazemos? Percebemos que, no mais pequenino, a quem dermos um copo de água por amor, estamos a acolher o Salvador?

A dignidade dos templos e das alfaias, a solenidade e sonoridade das liturgias, a perfeição das instituições e estruturas físicas poderão, porventura, sobrepor-se ao zelo por descobrir, ajudar a descobrir, respeitar e ensinar a respeitar a dignidade da pessoa humana, de forma real, ombreando ou tomando a iniciativa na busca de soluções para os novos problemas emergentes de pobreza?

A Mensagem do Sínodo dos Bispos de 1971, sobre a Justiça no Mundo, proclamava parte constitutiva da evangelização o testemunho de partilha dos cristãos, nas alegrias, angústias e sofrimentos da Humanidade. Chegou a ocasião de revisitar esse impulso radical, para nos desentorpecer das nossas rotinas e nos lançar na vida austera e sóbria, que se torne solidariedade geradora de crescimento e vida!