A verdade das palavras

As palavras têm um conteúdo, um sentido, sob pena de não cumprirem a sua função de canal de comunicação. Sentido que pode ser recriado sob múltiplas formas, sem deixar nunca de ter subjacente um referente, que permitirá ao receptor interpretar o pensamento do emissor.

Vem isto a propósito da expressão Comunidade Internacional. Diz-se que a Comunidade Internacional deve apoiar isto ou aquilo, que não pode ficar indiferente em relação a situações concretas, que tem obrigação de intervir em circunstâncias específicas…

Mas, afinal, o que é, o que faz, quem coordena… essa Comunidade Internacional? O que tem de verdade de cooperação, de intercâmbio, de comunhão? Por onde passam as fronteiras da sua internacionalidade?…

Apela-se a ela para intervir na Líbia. E uns tantos países concertam uma intervenção militar para ajudar a derrubar um ditador. Depois, fica um povo à mercê de quem, sujeito a que interesses, com referências solidárias com que consistência? Uma aliança militar programa uma invasão em nome da defesa da humanidade. Movida por que reais interesses, submetida a que objectivos? Destacam-se contingentes para “manter a paz” entre nacionalismos recentes. Criam-se missões para refrear guerras civis. Perpetuam-se presenças: para salvaguardar a segurança e o progresso das populações?

Fica, quase sempre, a impressão de que há intervenientes, em nome dessa Comunidade Internacional, apenas veios de transmissão de ideologias, de radicalismos religiosos, sobretudo de interesses financeiros.

Aquelas organizações que procuram minimizar catástrofes humanitárias, envolver as populações desfavorecidas na busca da sua autonomia, pela educação, pela implementação de estruturas básicas que confiram patamares de vida dignos… têm sempre dificuldades de recursos, humanos e materiais, em detrimento dos arsenais militares, a viver do subdesenvolvimento, da desumanidade dos povos.

Pretextos étnicos e religiosos são, não raras vezes, o fósforo que incendeia as regiões. Ergue-se o ódio entre vizinhos, porque é mais fácil ter na mão os desentendidos!

Será difícil conciliar uma Comunidade Internacional com as legítimas soberanias nacionais. O mundo é um mosaico de culturas, raças, religiões, projectos sociais e políticos. Mas não haverá modo de instituir um conjunto sumário de princípios, que ergam a pessoa humana como o ponto de partida para toda a orgânica e estrutura social? Um conjunto de regras, que submetam a finança ao serviço da pessoa e de todas as pessoas? E então sim, algumas estruturas mínimas, reconhecidas pelas suas “mãos limpas”, para moderar e concertar a diversidade de interesses?

Então, talvez se possa começar a falar de Comunidade Internacional, sem se confundir com o poderio e a ganância de alguns, armados em tutores de todos os outros. Urge a verdade das palavras!