Emigrar ou ficar?

Olhos na Rua Parece que a memória e a inteligência de muita gente se entorpeceram. Foi um escândalo, que fez romper vestes, ouvir que a emigração podia ser campo aberto para jovens qualificados encontrarem fora, trabalho que não encontram aqui.

Sou do tempo da emigração clandestina, dos grandes riscos corridos ao tentar sair do país, das situações dolorosas que muitos portugueses enfrentaram para poderem ter o que aqui nunca teriam. Eram muitos deles analfabetos, sem qualificação profissional, sem saberem uma palavra da língua do país de destino. E a grande maioria venceu, criou condições que lhe permitiram uma vida digna, educaram os filhos com garantia de futuro, mudaram o retrato social das nossas terras, deram vida ao país enviando divisas. O mesmo caminho se andou, em séculos passados, sem estado social…

Agora, em tempo de liberdade, o Estado tem de resolver tudo, mesmo a pessoas a quem já deu escola e universidade? Seria bom que houvesse aqui condições para todos, mas não há. Ninguém vive de ilusões ou com os pés no ar. Não será mal que nos aceitemos como somos, a maneira certa de podermos um dia ser diferentes. E mais dispostos a trabalhar e a fazer pela vida, como fizeram os nossos emigrantes, talvez aprendamos a fazer lá fora, sem pejo, o que nos negamos a fazer aqui.