Metade dos casamentos católicos termina em divórcio, as a Igreja não questiona a preparação

Conclusão da entrevista ao P.e Manuel Joaquim Rocha (primeira parte na edição de 26 de Janeiro de 2011), a propósito da publicação do livro “Alianças partidas” (ed. Paulinas), sobre “divorciados recasados e outras situações irregulares perante o matrimónio”.

CORREIO DO VOUGA – As pessoas continuam a casar pela Igreja, apesar de muitos desses casamentos terminarem em divórcio. Casam por tradição?

MANUEL JOAQUIM ROCHA – Já não é a maior parte que casa pela Igreja. Mas mesmo que ponhamos em pé de igualdade casamento católico e casamento civil, não sei em quais deles acontecem mais divórcios. Os problemas são os mesmos. Devemos assumir que o sacramento ajuda a resolver as dificuldades. Mas é preciso que “eu queria que o sacramento me ajude”. Se o casamento na Igreja só teve como motivação “porque a sociedade assim quer”, ou o edifício, ou a tradição… se não tiver noção do sacramento, ele não faz efeito.

O subtítulo do seu livro refere “outras situações irregulares perante o matrimónio”. Quais são?

São todas aquelas que tendo aparência de casamento, não o são. Refiro-me sempre a situações heterossexuais, nomeadamente as uniões de facto e as uniões civis, embora haja um breve apontamento sobre o que a Igreja pensa das uniões homossexuais.

Em relação a todas estas situações a Igreja diz que quem está nelas não pode comungar…

Sim, mas a avaliação não é mesma. A Igreja distingue um casamento civil de uma união de facto. A Igreja entende o casamento como um sacramento que também é um compromisso público, uma aliança. É um contrato entre duas pessoas diante de Deus. Ora o casamento civil também é uma aliança entre duas pessoas que têm um projecto de vida. Não o relacionam com a Igreja de Jesus Cristo mas com o Estado ao qual pertencem, ao qual se sujeitam e do qual lucram as leis que ele tem para proteger o contrato. Ora, há aqui um assumir de responsabilidade que não está presente nas uniões de facto. “A gente gosta-se. Porque não vivermos juntos?” A união de facto é considerada um assunto privado. Para a igreja, o casamento nunca é privado. É sempre público. Os casamentos civis estão mais perto daquilo que a Igreja pensa.

O que a Igreja deve fazer na pastoral dos divorciados recasados?

Primeiro, partir de que é verdade que o casamento está hoje em crise, porque está em crise a palavra que nós damos, está em crise a nossa relação com o outro/a. Privilegiamos muito a liberdade, os direitos individuais – o que está bem, mas não se pode absolutizar. Se eu vivo com alguém, tenho de saber até que ponto a minha liberdade joga com a do outro. O meu direito a ser feliz não é absoluto, a ponto de prejudicar o outro. A vontade individual de ser feliz pode perturbar a relação, que é algo conjunto, uma felicidade que se constrói a dois e depois em família. É preciso educar para os valores, para o ser pessoa, ser grupo, ser relação em relação com os outros e o mundo.

Quer dizer que a preparação do casamento começa na educação?

Sim, mesmo sem falar de casamento. Aprender a ser pessoa com os outros obriga a que cada um de nós se tenha de situar dando lugar ao outro. E há sempre esquinas que é preciso limar. Quem só pensa em si não tem vocação para o casamento. E esta é uma segunda ideia: nem todos têm vocação para o casamento. Temos de pensar “qual a minha vocação, qual o meu lugar?”

Além disto, sabendo que metade dos casamentos termina em divórcio, o que fazemos com esta dado? Continuamos com a preparação mesmo em cima dos casamentos. Poderia haver um certo caminho catecumenal, se calhar utilizando pontos concretos: quando se pedem em casamento, quando casam civilmente… Porque não o entender o casamento como uma caminhada? Alguns dir-me-ão que isto põe em causa que o contrato é inseparável do sacramento…

Por outro lado, agora há quatro encontros de preparação. Já foram sete. Quando os noivos os frequentam já têm datas marcadas. E às vezes ainda faltam a alguns. A preparação para o casamento não adianta nada à decisão de casar. Precisamos de parar para pensar na forma como estamos a preparar os nossos noivos. Vemos que algo não está a ter efeito, mas continuamos a repetir as mesmas práticas.