A oração não deve ser um intervalo na vida

A Irmã Helena Maria Cardoso Oliveira, natural de Ílhavo, integra a Congregação do Amor de Deus. Licenciada em Biologia e em Ciências da Educação, é responsável pela coordenação pastoral do Colégio do Amor de Deus, que a sua congregação detém em Cascais. O Correio do Vouga entrevistou-a em Aveiro, aonde se descolou para orientar uma acção de formação para animadores juvenis. Em foco esteve o tema da oração, que, na presente etapa pastoral, é uma das prioridades da diocese de Aveiro. Entrevista conduzida por Jorge Pires Ferreira.

CORREIO DO VOUGA – Os jovens precisam de aprender a rezar ou é a igreja que tem de rezar com os jovens e como os jovens?

HELENA MARIA CARDOSO OLIVEIRA – Os jovens precisam de aprender a rezar. E educá-los para a interioridade, em primeiro lugar, fazê-los perceber que são habitados por Deus, é uma missão da Igreja. A partir daí pode-se ensinar a rezar. Mas que primeiro temos nós de aprender a rezar e fazer da vida um espaço de encontro com Deus. A partir, daí, sim, podemos estudar técnicas e encontrar métodos que ajudem a rezar as pessoas que têm menos experiência do que nós.

Mas mais importante do que ensinar técnicas de oração é fazê-los experimentar que Deus está presente nas suas vidas. É preciso encontrá-lo na vida e nos outros para que a oração não seja um intervalo na vida.

Os jovens querem aprender a rezar?

Os jovens estão muito despertos para a vida espiritual em geral. Mas não sabem rezar. Vivem a oração como vivem a vida: muito fragmentada. Vive-se por momentos: um momento agora que não tem nada a ver com o momento a seguir. Por isso mesmo, é fundamental educá-los para a continuidade, para a presença permanente e constante de Deus na sua vida, para que depois tenham momentos de maior intimidade, seja individualmente, seja em grupo. A oração é tornar consciente a presença de Deus que já se vive no dia-a-dia.

Os educadores cristãos – pais, catequistas, padres, animadores – estão preparados para ensinar a rezar?

É muito variado. Eu diria há de tudo. Há pessoas que têm uma vida de oração profunda, um grande vida interior, e que são animadores de jovens. Geralmente, fizeram retiros e experiência de movimentos que lhes deram essa abertura e essa sensibilidade. Há outros que estão muito influenciados por um conceito de espiritualidade tradicional e acham que rezar é missa e dizer orações, que é só para certos momentos ou certas pessoas. O grupo que tenho hoje comigo [grupo de 40 animadores juvenis na acção de formação promovida pelo Secretariado Diocesano da Pastoral Juvenil e Vocacional, no dia 15 de Janeiro] é gente muito sensível e tem uma perspectiva muito aberta para o modo de rezar mais actual.

Se puder resumir em dois ou três tópicos, como devemos fazer para rezar mais e melhor?

A primeira coisa que temos de fazer é aprender a ser humanos. Jesus Cristo veio dizer que nele e a partir dele não há espaços sagrados e espaços profanos. Toda a vida é lugar de encontro com Deus. Esta é a primeira dimensão de que temos de tomar consciência. Temos de dar qualidade à vida, no sentido de vivê-la intensamente, fazer as coisas o melhor possível, ser o mais humano possível ao jeito de Jesus.

Depois, criar uma disciplina interior de encontros específicos de oração, de encontros com Jesus, para percebermos se o caminho que estamos trilhar está de acordo com Ele ou se é auto-recriação minha, se estou a fazer só o que me apetece e não o que é vontade de Deus, que é o que Jesus nos ensinou a fazer.

Cada um vai descobrindo o seu ritmo. Quem não tem muita experiência tem de fazer algo mais «light», menos tempo por dia. Mas que seja um tempo fixo. Se não consegue todos os dias, consiga uma vez ou duas por semana. Mas ser fiel a esse tempo é uma disciplina interior que temos de criar. À medida que vamos caminhando na interioridade e na experiência de Deus, esses tempos podem ser mais alargados e multiplicar-se pelos dias da semana.

O desejável seria que todos os jovens cristãos tivessem pelo menos um momento diário de oração, de duração variável, consoante a sua própria caminhada?

Sim, seria o desejável e, ao mesmo tempo, quer para jovens, quer para adultos cristãos, seria a situação normal.