Num tempo em que acreditava piamente na investigação da ciência teológica, quando em 1991 lançou o seu Cristo excessivamente humanizado em “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, o evangelho do Saramago, eu estudava em Coimbra, e fui com dois companheiros, à sessão pública de apresentação do romance, envolvido em polémica gratuita. Não fiz perguntas. O meu colega fez uma pergunta de dimensão teológica, sobre a questão dos géneros literários, e a ignorância religiosa de Saramago impressionou-me sobremaneira. Pensei comigo: um génio perdido no seu narcisismo. Recolhi o seu autógrafo no romance e depois que o li com muita sofreguidão… vendi-o a outro colega de estudos. Hoje estou quase arrependido. Já comprei outra edição de bolso, na Editora Companhia de Letras, para talvez reler na minha futura “dispensa laboral”.
Além dessa primeira leitura traumática, li todas as suas entrevistas que achei na imprensa. Li também “Todos os Nomes” e mais uma obra que não lembro agora. Ao todo três obras completas… que segundo os críticos nem serão futuramente as mais importantes. Espero um dia poder ler os seus Ensaios (Cegueira e Lucidez). Coisas de leitor endividado. Nessa qualidade gostava do Saramago, na sua eterna dívida para com o Transcendente e pela ausência exagerada da pontuação explícita (implicitamente havia sempre pistas e indicativos, senão seria o caos hermenêutico…), talvez aí encontre uma pequena empatia pela dificuldade imensa que tenho ao pontuar os textos que vou tentando escrever.
Era um provocador nato. Sabia tirar partido disso como ninguém. Por essa razão só me consola a eterna provocação mútua: nunca mereceu o prémio Nobel… foi uma fuga de (in)formação da academia sueca. Lamentável, pelo menos, por uma questão de justiça, existiam três nomes à sua frente: Miguel Torga, Sofia de Mello Breyner ou Agustina Bessa-Luís.
Como mau aprendiz de “teólogo no fio da navalha”, demonstrou ser uma aberração completa. As entrevistas sobre a obra Caim foram gritantes. A sua e nossa inteligência não mereciam tanto. Falta da mais elementar sensibilidade. Seu ateísmo, supostamente radical, não ajuda os bons ateus… quanto mais os maus crentes. Afirmam que escrevia bem. Em termos de imaginação literária, sim. Nisso a sua criatividade era exemplar… Era quase um génio! Embora existisse sempre excessivo marketing, à volta do lançamento das obras e aparições em público. O seu profetismo era o do ateu convicto e vai-nos fazer alguma falta dialógica, embora ele só dialogasse com o seu próprio umbigo.
Nunca o vi crescer em pensamento e abertura religiosa. Um desperdício notável. Tinha os seus inimigos de culto, sempre escoltando pelos seus acólitos, fiéis servidores e propagandistas dos seus dogmas inquestionáveis. O seu telhado não era de vidro, o do próximo era! Deveria ser enterrado em Lanzarote pois decidiu viver ilhado, como ilhado deveria ser sepultado, em coerência absoluta até ao fim.
Perdi um inimigo virtual. Vou rezar respeitosamente por ele na missa de hoje [18 de Junho de 2010], só pela sua dimensão corporal. A mente e o espírito dele não precisam!? Seja cumprida a justiça do corpo. Morreu um justo incompreendido por si mesmo.
