A sabedoria do Chanqueta

Olhos na Rua O Chanqueta era um velho homem do mar, que vivia junto à praia. A sua casa era a carcaça de um velho barco, que servia, também, de sala de acolhimento à gente nova que o procurava para dele colher saber e experiência de vida.

Um dia, um jovem, seu amigo, chegou revoltado e comunicou, de rajada, que ia abandonar a casa dos pais, porque o pai não o entendia e sempre o contrariava. Não aguentava mais. O Chanqueta, como sempre fazia, ouviu, ouviu… Por fim, disse, com paciência e rigor: – Então o que queres tu de mim? Um conselho? Uma ajuda para pensares bem e reveres a tua decisão? – Não. A decisão está tomada. Quero apenas que me emprestes dinheiro para partir. – Já viste o que pedes? Se os teus pais sabem, que vão eles pensar de mim? – Dizes que és meu amigo e agora não me ajudas? És igual aos outros. – Pronto. Se amanhã persistires, vem e eu te emprestarei dinheiro. Fica já debaixo daquela pedra. Pode levá-lo, mas só amanhã…

Nem ralhos, nem zangas, mesmo com o coração a doer. Ouvir, fazer pensar, correr riscos… E o Chanqueta ganhou… Há por aí chanquetas iguais, mas também há quem dê mãos a disparates inconsiderados… Vi, por um acaso, este episódio, e dei graças a Deus pelos Chanquetas que vivem por esse mundo fora. Por todos os sábios anónimos que fazem da vida a sua cátedra. Que aceitam correr riscos, porque acreditam que, dentro de nós, há forças que encaminham para o bem e não apenas loucuras que empurram para o charco sujo, mas, mesmo assim, tentador.