O autor – P. José Tolentino – convida os seus leitores, em forma de oração, a percorrerem “a estrada da alegria”, “no simples, no próximo, no escondido da vida”… Ótima sugestão nesta caminhada para a Páscoa, em tempos de massiva difusão do pessimismo, de implacável e esmagadora publicitação da desgraça, da descrença, da fatalidade.
É na descoberta e no saborear da imensidão das pequenas coisas boas, que todos os dias e por toda a parte acontecem, que se experimentará ser a alegria “uma onda puríssima que se expande”. E essa é a atitude construtora de esperança, que poderá neutralizar e superar a onda de desânimo e conformismo que avassala as nossas sociedades, alicerce de uma nova convicção de que há uma Boa Notícia para a humanidade, pressuposto para acolher Jesus Cristo e o acontecimento pascal como fonte de dinamismo permanente e inextinguível.
Cristãos que somos, não podemos viver como aqueles que não têm esperança. Mais: somos responsáveis por fazer germinar essa condição de vida e de futuro. Depor as armas e deixar-se ir na corrente é tudo menos confiar n’Aquele que venceu o mundo.
A história repete-nos épocas e situações de dificuldades e perseguições que nem por isso abrandaram o ânimo, a determinação dos verdadeiros discípulos. A seara leva o seu tempo a germinar, a crescer, a dar fruto. Mas a qualidade da semente, se cair em boa terra, garante uma colheita abundante.
Lendo o percurso das relações entre a Igreja e o Estado português, na I República, damos conta de que medo e discrição, firmeza e esperança, convicção inabalável e subtil alegria em meio da tribulação, consolidaram caminhos de libertação. Foram avanços e recuos, janelas abertas e portas fechadas… Mas a paciência e a sólida garantia de que o Reino cresce, como a seara, sem o agricultor dar por isso puderam transformar os sofrimentos em caminho de purificação e libertação.
Está ao nosso alcance percorrer hoje as mesmas veredas, com serena negociação, mas também com voz segura e canora, sem dúvidas de que o Evangelho é uma luz para o Homem e para as sociedades, compreendendo as ideias diversas sem mitigar a nossa identidade, acolhendo a diversidade sem deixar de propor o ideal.
A Luz não é para colocar debaixo do alqueire! O que é preciso é colocá-la no lugar elevado e deixar que o seu brilho seja pleno. E, mais tarde ou mais cedo, muitos perceberão que só Ela permite reconhecer todos os meandros da pessoa humana e os caminhos que lhe dão realização plena. A Quaresma é um caminho de libertação e de iluminação! Um caminho para descobrir rostos felizes – nos simples, nas pequenas coisas…; um caminho ao encontro da aurora que se levanta. Não é um tempo de nuvens carregadas, de plúmbeo crepúsculo que se abate sobre as nossas cabeças e nos esmaga.
Caminhamos rumo à ressurreição!
