A Árvore de Zaqueu Em duas brevíssimas penadas, Mateus apresenta os primeiros discípulos de Jesus, «sintetizando» toda uma mais ou menos longa relação humana, em que os «chamados» são finalmente convencidos a alinhar num projecto. Serão «pescadores» e não «pastores» – pois andarão atrás do desconhecido, num espírito «missionário», sem se contentarem com situações bem definidas e ordenadas. «Deixar as redes» já tinha o significado de libertação de preocupações menos importantes diante do grande objectivo da vida.
Mateus terá gostado de sublinhar que Jesus começou «a sério» a sua missão num lugar estranho e pouco convencional: nem em Jerusalém nem no deserto, e numa região onde os não judeus representavam metade da população («Galileia dos gentios»). O grego era a língua mais utilizada e a maneira de pensar afastava-se das formas tradicionais do pensamento judaico. Jesus era inteligível para os pagãos que o quisessem escutar.
Os seus discípulos terão que se meter nos grupos mais diversos. A carta de S. Paulo refere como bem cedo apareceriam conflitos entre grupos, reclamando-se cada qual de ser o melhor, ou de pertencer à “escola” de uma personalidade de prestígio. Nessa época, Corinto era um dos maiores centros culturais do mundo greco-romano, onde as correntes filosóficas, as religiões, a arte… se misturavam com a ligeireza de vida. A mensagem cristã adquiria foros de mais um sistema filosófico, a debater entre “escolas” rivais.
S. Paulo desmonta todo o esquema: nem culto de personalidades nem «sabedoria de palavras». O evangelho proclama que «o reino dos Céus» está ao nosso alcance, mas é preciso “querê-lo a sério”, com muita atenção ao «mandamento novo». Ninguém pode ensinar ou ser empresário, para ser “senhor” dos seus ouvintes, dos seus clientes ou dos seus predilectos. E ninguém é mais ou menos importante só por ter ouvido ou trabalhado com fulano em vez de cicrano. E o valor perene das nossas acções só é alcançado se procurarmos sobretudo a promoção da Verdade e da Vida.
Jesus não disse «quem não é por mim é contra mim»; pelo contrário, afirma e admoesta os apóstolos: «quem não é contra a verdade é por mim» (Marcos 9,40). Como quem diz: não condeneis ninguém, só porque não pertence ao vosso “grupinho”.
A «busca da felicidade» que alimenta os nossos sonhos não passa de ingenuidade, se não virmos como aqui e ali ela se vai materializando pelo esforço de todos nós em melhorar a qualidade de vida. Só é “vida a sério” aquela que se esforça por nos fazer cada vez mais felizes – e a família, empresa, autarquia, União Europeia… são base de grupos de compromisso com o bem-estar da humanidade inteira.
Ninguém pode ser feliz sozinho. A 1.ª leitura fala-nos de todo o povo que se viu liberto de muitas condições de miséria e tristeza, e nisso vê como Deus nos quer fortes, corajosos, optimistas, e como, por maiores que sejam as trevas, a luz de Deus em nós só se apaga se a quisermos deixar morrer. A essa luz, descobrimos o modo de gerar riqueza e progredir sem ódio nem opressões; e que não existimos para uma vida sujeita aos condicionamentos da natureza ou da injustiça, mas para uma vida de alegria sem sombras (tema frequente nos Salmos e Livros Sapienciais).
Jesus é a luz para judeus e pagãos. Vence as trevas do desespero e da inquietação relativamente ao que é que vale mais a pena. A salvação da humanidade dar-se-á a nível social, político e espiritual. O «reino de Deus» não é ainda perfeito mas a sua força já se faz sentir – tanto mais forte quanto melhor nos soubermos «desenredar».
Manuel Alte da Veiga
