Conhecer o Senhor – II

Poço de Jacob – 65 No último artigo tecemos considerações sobre o que significa, em alguns textos bíblicos, conhecer o Senhor. De facto, o convite à sua intimidade é constante nos Evangelhos e em toda a nossa vida. Somos filhos de Deus e Ele nos quer para Ele e nele. Conhecer o Senhor é conviver com Ele. “Já não vos chamo servos mas amigos… pois o servo não sabe o que faz o seu Senhor…” “Eu vos dei a conhecer o que ouvi de Meu Pai…”

A Palavra, o Verbo, é quem se ouve o Pai pronunciar desde toda a eternidade. Conhecer o Verbo é entrar na intimidade do Filho de Deus, que nos leva ao seio do Deus Uno e Trino. Para tal, temos de desenvolver em nós, ou melhor, deixar Deus desenvolver em nós, a vida interior, no maravilhoso segredo da aventura da alma no contacto com seu Criador, que é também seu Esposo.

Este é o projecto de Deus quando se nos revelou em seu Filho Unigénito. Poderíamos citar trechos e trechos da Sagrada Escritura que nos envolveriam numa deliciosa consideração contemplativa do mistério do Deus que nos ama. Mas interessa também notar que esta intimidade oferecida e vivida por Deus em nós e connosco não fica só no interior da mente, do coração e da alma de cada homem. Ela manifesta-se no dia-a-dia da nossa vida, nas coisas mais pequenas e insignificantes. Um sacerdote santo dizia-me num retiro que Deus tem de nos mover até nas reacções espontâneas, em que não fale o instinto mas o amor por Ele. O nosso querer tem de ser igual ao dele. O nosso actuar tem de ser de acordo com sua vontade, para o agradar só a Ele. Por isso, podemos dizer que quem conhece o Senhor não tem dificuldades em perdoar. Se não perdoamos e não esquecemos é porque nos consideramos demasiado importantes e nos deixamos atingir pela ofensa.

O homem que vive em Deus aspira a não se deixar ofender, porque se considera merecedor de desprezo, porque as coisas que nos fazem não tem realmente importância, porque o nosso eu chega a estar educado. Perdoa espontaneamente, porque acaba por não saber não perdoar, pois não se sente nunca atingido pela ofensa, ainda que sua inteligência capte o acto ofensivo em si. Por isso não nos admira a atitude de perdão do Senhor na cruz.

O homem que conhece a Deus aspira a espontaneamente confiar no Senhor e não ter confiança em nada mais. Sabe viver na alegria e na tristeza, na dor e na saúde, na vida e na morte, na atitude de quem vive o dom recebido de Deus que sabe o que é para o nosso bem e nos reserva um céu de delícias. Reage como homem diante do seu cancro, mas integra-se na sua nova situação e vive a aventura do bem morrer com alegria e serenidade, como vemos na vida dos santos de ontem e de hoje. A morte é o abraço esperado e o entrar na luz… mergulhar no amor.

O homem que conhece Deus deveras aspira à perfeição e sente-se pequenino e miserável, sempre carente de misericórdia divina. Não julga, pois tudo suporta, como diz S. Paulo no Hino da Caridade de 1 Cor 13, simplesmente porque conhecer Deus é viver no amor. Acaba por nada temer como os mártires da história. Sabe que o amigo de Deus não teme notícias funestas, como diz a Bíblia, e por isso vive no abandono.

De facto, a intimidade com Deus é a única realidade que pode trazer paz, felicidade, amor e vida a cada um de nós. E está ao alcance de todos. Pois Ele reside no coração de cada homem e quer fazer de nós a sua morada e as suas delícias.

Deixa-te tocar… e verás como o mundo do convívio com o Senhor te ajudará a renovar a face da terra e te dará a verdadeira juventude da alma.

P.e Vitor Espadilha