Qual frágil lenho

De importuno e grave corpo aliviado,

Senhor meu, que, ao mundo, já não preso,

Qual frágil lenho a Ti, cansado, regresso

De horrível procela em doce calma.

Espinhos e pregos, numa e noutra palma

Com seu benigno, humilde e pio vulto

Prometem graça de arrepender-se muito,

E salvadora esperança à triste alma.

Não voltes com justiça teu olhar

Pró meu passado, ou ouvido agudo;

Nem para ele estendas mão severa.

Teu sangue minhas culpas lave e toque,

E mais abunde quanto mais velho sou,

De pronta ajuda e de perdão inteiro.

Texto e imagem de Miguel Ângelo (1475-1564).

Esta “Crucifixão”, daquele que também é o autor dos frescos da Capela Sistina, até há pouco estava atribuida a outro pintor. Só em 2010 foi reconhecida como sendo de Miguel Ângelo (antes, atribuia-se a Marcello Venusti [1512/1579], um discípulo do génio renascentista).

Ao lado de Jesus estão dois anjos em lamentação, bem como Maria e o “discípulo amado”. Junto à cruz, um crânio, referência tradicional ao “Gólgota”, “lugar do crânio”.

Miguel Ângelo pertenceu a um grupo de intelectuais que procurava uma aproximação mais espiritual e genuína à fé cristã. Esta pintura corresponde a esse período de busca espiritual, pois ao contrário de outras crucifixões, mais nada apresenta da Paixão do que os elementos essenciais.