A vida como um conto de fadas

Poço de Jacob – 37 A nossa vida não é fácil. Já nascemos a chorar e contrariados por nos vermos fora do aconchego da mãe. Vamos crescendo de descoberta em descoberta. Se a nossa vida familiar é estável, as descobertas são sempre muito interessantes, embora muitas não deixem de ser dolorosas.

Uma grande parte dos seres humanos cresce no meio de dores e sofrimentos como doenças, a morte dos pais, a violação, o divórcio precedido de intermináveis discussões entre os pais imaturos e irresponsáveis diante do filho que cresce. Cada família, com sua peculiaridade, dá ou tira do ser humano alguma coisa que lhe faz falta. Muita gente cresce no meio de fome, guerras, cataclismos… Poucos podem dizer que nasceram em berço de ouro e num paraíso. E mesmos estes estão sujeitos ao peso do existir.

Cheias de quimeras e sonhos, a adolescência e a juventude são atribuladas em busca não se sabe bem de quê. Vivemos aliciados por tantas solicitações que nascem fora e dentro de nós… O nosso corpo revela-se progressivamente aliado e inimigo.

Os apetites da sensualidade cegam-nos, por vezes. Vivemos de esperanças e revoltas. Pomos em causa Deus e o mundo. Se bem orientados, até nos superamos. Muitos ficam no caminho, tombados pela falta de oportunidade ou pelos oportunistas da vida. Por vezes não temos onde nos agarrar e não vemos estrelas no céu.

Casamo-nos ou não. Padres ou religiosas, muito podemos ser, mas o confronto com a vida e com o outro pode chegar a tal dimensão que dizemos com S. João da Cruz que antes queremos trabalhar com pedras do que com homens. Confrontamo-nos com a maldade de quem quer subir à custa de qualquer meio. Rivalidade, concorrência, vaidade, mentira e maledicência. Sentimo-nos alvos e também culpados. Os problemas de consciência multiplicam-se segundo as circunstâncias e muitas vezes o pecado domina-nos com os seus vícios. Temos de recorrer a amigos, padres e psiquiatras. A depressão domina grande parte dos homens.

Temos muitos momentos bonitos na vida, mas na hora da dor esquecemo-nos de todos eles e culpamos Deus pela sua surdez… Vem a velhice e, já marcados pelo luto de tantos e com o corpo sem resistências, conforme a educação, o temperamento e até a fé, queixamo-nos de Deus e do mundo e nem sempre entendemos a dor como desafio nem avaliamos a capacidade de mérito. A sociedade ora nos estima ora nos faz sentir que somos um fardo. E finalmente, lá estamos nós, no velório para sermos sepultados, saldando a vida como grandiosa ou como uma inutilidade. Mas esse Jesus, que lidou com a samaritana no meio da sua vida, já cheia de mazelas, maridos e preconceitos, nada lhe cobrou e prometeu-lhe água viva. Se nos deixarmos guiar por Ele, nas suaves planícies ou nas veredas escarpadas da vida, Ele mostrar-se-á Bom Pastor e Bom Samaritano e nada do nosso ser, por muito traumatizante que seja, terá sido em vão.

Ele escreve em ti a sua história, na tua história, e pode fazer maravilhas se lhe deres carta branca para Ele escrever como entender a tua história. E como em todos os contos lindos, o teu também será um, mesmo que vivas nas sombras da morte. E como em todos os contos lindos, tua vida só terá um fim: e viveu feliz para sempre!

P.e Vitor Espadilha