A Árvore de Zaqueu DOMINGO XI – Ano C
Este chavão político já perdeu a graça original, como quando uma criança perde a ingenuidade. Passou a ser mais uma desculpa: «Sim, a gente até sabe que o “politicamente incorrecto” é frequentemente “o mais correcto” de acordo com a dignidade humana – mas será que vale a pena remar contra a maré e desmontar os “truques” de gente muito sabida e bem posicionada no palco da vida, tirando dos nossos bolsos tudo o que podem transformar em receitas de mais e mais rápido poder, de mais prazer, de maior e mais rentável lugar de destaque… tudo isto bem embrulhado em lencinhos de seda donde fogem pombinhas da paz? Não será melhor fingir não ver?»
David, ao mandar matar o general Urias para ficar com a mulher dele, foi politicamente correcto: mostrou o seu poder e bom gosto pelas mulheres, não lhe bastando as incontáveis concubinas. Foi contra a Lei – mas que pode a Lei contra os poderosos? Depois arrependeu-se, no que foi politicamente incorrecto: confessou-se culpado, abusador do poder, e que justamente devia ser castigado. O mesmo sucede com S. Paulo: politicamente correcto quando perseguia os cristãos em nome da Lei, converteu-se ao amor que julga a própria Lei, e acabou por ser condenado à morte pela Lei, acusado de politicamente incorrecto.
E Jesus? Não começou, na sua família, por cumprir todos os preceitos da Lei? Não era fiel às festas religiosas e à oração no templo? Mas fazia tudo isto, na medida em que os procedimentos legais eram sustentados e até ditados pelo amor, aquele amor que se manifesta na dedicação aos outros, para que sejam mais livres e portanto mais alegres, mais confiantes, mais aventureiros, mais corajosos para partir por caminhos novos e para admitir que se enganaram, se for o caso. Mas acontece que o legalismo apenas considera o que está escrito e diz que é incorrecto querer saber mais sobre a «autoridade» da Lei…
Lá viria a propósito falar outra vez do amor, mas este conceito é facilmente incorrecto: por um lado, tem a conotação de lamechice; por outro lado, é exigência e bem-querer, na sua plena dimensão – o que atrapalha qualquer política correcta.
A Lei indica o que está mal, mas serve sobretudo para condenar quem não a respeite, e não dá forças ao Homem para se ater ao que é bem. Só pela vontade de adesão ao plano de um mundo novo, é que recebemos a força do Espírito de Deus. Aliás, já é o próprio Espírito que nos incita a querer confiar. Jesus submeteu-se à Lei, como qualquer Judeu honesto. Mas, justamente, condenou o legalismo daqueles que se acham justos porque cumprem a Lei – os politicamente correctos. As nossas acções de nada valem, se não são inspiradas pelo «incorrecto» amor, e transfiguradas ou radicalmente substituídas pela capacidade própria do amor que explora a riqueza da humanidade, com aquela visão profunda e aquele toque de magia que transforma os projectos humanos em prazer sem crédito mal parado…
E porque as decisões estão continuamente nas nossas mãos, a Sabedoria de Jesus Cristo apenas nos quis deixar um plano de vida «em aberto»…
Jesus não se preocupa com o politicamente correcto ou incorrecto: está acima destas classificações e das palavras cruzadas dos que reduzem a vida a jogadas de poder.
Aceitou o convite de um fariseu “correcto”; aceitou o amor de uma mulher “incorrecta”. Mostrou ao fariseu que afinal nem perante a sua Lei se tinha portado correctamente; mostrou à mulher «pecadora» que Deus não tem um ficheiro das nossas acções correctas ou incorrectas. Deixou-se prender pelas lágrimas, beijos e carinho de uma «pecadora», que assim deu testemunho daquela magia do amor…
Manuel Alte da Veiga
