Padre Arménio

DOMINGOS CERQUEIRA

Não sei bem porquê, há dias dei comigo a recordar a minha relação não só de paroquiano mas de uma grande amizade com o P.e Arménio Costa (04-07-1933 – 15-02-1997 ). Não sei bem porquê não é bem verdade. Houve três factos que me trouxeram à memória o tempo que passei num relacionamento muito próximo com o P.e Arménio: primeiro, foi o meu compromisso com a paróquia por essas alturas; depois a “receção” da Glória ao novo pároco, P.e Arménio; e depois a recente saída daqui de mais dois sacerdotes.

Em primeiro lugar, com o P.e Arménio, foram as obras de restauro do edifício da Sé e o ter de arranjar o dinheiro para essas obras. Foram os cortejos de oferendas (como me lembro das autênticas revelações de dedicados pregoeiros nos leilões); foram horas e horas de conversa na residência paroquial, na Sé ou em minha casa, em serões fantásticos; e foram até as tentativas do P.e Arménio para me pôr a cantar – eu, que nem nas missas canto por ter vergonha de cantar, pois tenho sempre a ideia de pôr toda a gente a olhar para mim tal seria a desafinação! Pois na altura, ao fim de algumas tentativas do P.e Arménio, e minhas também, e com muita paciência dele, dei comigo a cantar afinadinho, para grande espanto meu! E depois foi a minha colaboração na catequese dos jovens mais velhos e o meu empenhamento na comissão fabriqueira, na divulgação do Estatuto Económico dos Sacerdotes e em tudo o mais que na altura foi a vida na paróquia e também na Diocese. Este vício de trabalhar na Igreja ficou-me muito para além do P.e Arménio. E tudo isto me veio à memória nestes últimos tempos e me fez recordar tantos momentos fantásticos vividos com este grande padre, até porque hoje, talvez porque as pessoas me veem já com uma certa inutilidade, deixei de ser preciso. Quem sabe se Deus não me quer noutros trabalhos e noutras funções.

Em segundo lugar, não me posso esquecer da receção ao P.e Arménio, quando ele veio da Vera Cruz para o lado de cá da Ria. Uns dias depois da sua chegada à Glória, e depois de ter sido alugado um andar ali na Rua do Príncipe Perfeito para residência paroquial, fui com a Eneida até lá a casa ver como as coisas estavam a correr. E ficámos siderados! Não havia móveis, cadeiras, tachos, roupas, louças, não havia praticamente nada. Como paroquiano, senti vergonha de receber assim o novo pároco. É que o pároco anterior, convencido de que tudo o que os paroquianos teriam dado para a casa eram bens pessoais, quando foi embora, tudo levou. Esse serão foi passado com o P.e Arménio e comigo, sentados em cima de uma mesa que tinha ficado por ser grande demais, com o P.e Pinho, que também tinha vindo trabalhar para a paróquia, sentado no chão à nossa frente, e com a Eneida ao lado e em pé. Estávamos os dois desolados e tristíssimos pela falta de uma residência paroquial, pela falta do mínimo que era exigível para os nossos padres poderem viver com algum conforto. E em oposição ao nosso desanimado estado de espírito, era manifesta a boa disposição dos dois sacerdotes e a total confiança que manifestavam. E o espantoso é que foram eles a animar-nos a nós! E com a solidariedade de todos, a casa foi-se enchendo do necessário. Nesses tempos, a mando de D. Manuel de Almeida Trindade, andámos pela Diocese a procurar dar testemunho da nossa vida de cristãos. E encontrámos sacerdotes a viver em situações de verdadeira pobreza. Penso e espero que toda esta situação tenha mudado. Passados alguns anos, o P.e Arménio foi para o Seminário e não levou nada, pois entendeu que o que lhe deram para a residência pertencia à residência e por isso à paróquia. Faço votos muito sinceros para que hoje as paróquias disponham de residências mobiladas e recheadas do que é necessário, para que os nossos padres vivam decentemente de modo a não sermos nós, os leigos, a sentir vergonha de casos como aqueles a que me refiro. Ainda agora saíram da nossa paróquia mais dois padres, que o nosso Bispo mandou para onde entendeu serem mais precisos. Um foi para a Barra e Costa Nova e o outro para Oliveira do Bairro e Sangalhos. Pela muita amizade e grande respeito que me ficaram a ligar a estes dois sacerdotes, pelo muito que conheço daquelas terras e das suas gentes, sei que o entusiasmo e todos os festejos com que receberam os seus novos párocos hão de ter tido, estou certo disso, correspondência nas condições que eles foram encontrar para viver.

Em terceiro lugar, talvez porque ultimamente se tem falado de um órgão para a Sé, tive mais um motivo para me recordar do P.e Arménio. Seria quase ofensivo vir eu agora recordar as imensas qualidades que ele tinha de grande apaixonado pela música. Aliás, foi esta também uma razão que muito me aproximou do P.e Arménio, não só apenas porque os meus filhos pertenciam aos Pequenos Cantores da Glória, mas porque também eu sempre fui um apaixonado pela música, embora um total analfabeto musical. Ainda andei, juntamente com o P.e João Gonçalves, no Conservatório, a aprender a tocar guitarra clássica. Mas o 25 de Abril acabou por me levar por outros caminhos e fui tocar para outras bandas, com pautas muito pouco musicais. Mas ainda me lembro de dedilhar a guitarra algumas vezes em minha casa, com a atenção do mestre P.e Arménio. Se durante estes anos todos o órgão da Sé é para mim uma espécie de espinho encravado na garganta, o desgosto que não seria para o P.e Arménio, ver diariamente, aquele órgão tão bonito e a merecer um restauro, para ali, pendurado na parede, surdo e mudo! Mas um dia o P.e Arménio pôs mãos à obra. Nunca foi sua intenção restaurar o órgão. Isso seria trabalho muito caro, e para técnicos especializados. Mas de música o mestre era ele. E com a ajuda do Henrique Lemos, outro paroquiano elevado a organista oficial da Sé, passaram horas a tentar dar voz aquela carcaça velhinha! E com muita arte, com muito amor pela música, e com uma força de vontade enorme, o órgão ressuscitou. E muitos de nós ainda nos lembramos das celebrações litúrgicas acompanhadas musicalmente pelo Henrique Lemos, que estando de costas para o altar, via através de um espelho tudo o que ali se passava. Mas iam surgindo algumas dificuldades de ordem técnica que foram sendo difíceis de ultrapassar. Com a saída do P.e Arménio e com o falecimento do Henrique Lemos, o órgão morreu mais uma vez. Mas que fique claro que não era sua intenção restaurar o órgão, mas enquanto isso não fosse possível, pelo menos dar-lhe voz. Faço votos para que agora, que tanto se vai falando na Rota das Catedrais, seja possível incluir nesse programa o restauro do nosso órgão. Eu, que durante alguns meses até fui nomeado conservador do Museu da Sé, acho que será uma grande oportunidade que não de deve perder. Mesmo com “Troika”, espero e desejo que haja arte e engenho que leve os governantes a não se esqueçam da Sé de Aveiro.

Para finalizar, não é preciso motivo nenhum especial para eu me lembrar amiudadamente do meu grande amigo que foi o P.e Arménio. É que um dia, em que eu desabafava que amiudadamente acordava de manhã com muita má disposição (como diz o povo, acordava com os pés de fora), ele deu-me a receita: que logo pela manhã, ao acordar, pusesse um rádio a tocar música que enchesse a casa. Foi receita de que nunca mais me esqueci, e também por isso tenho sempre presente este amigo.

Penso que não é preciso qualquer data especial para recordar os amigos. Mas quando me ponho a recordar os anos que passei nos meus trabalhos, há amigos que estão presentes nos momentos mais difíceis e nos que mais alegrias me têm dado.

E hoje apeteceu-me escrever estas linhas muitíssimo despretensiosas, a recordar alguns momentos vividos com este meu prior, o P.e Arménio.