Poço de Jacob – 99 Quando pegamos nos Evangelhos para meditar, ficamos surpreendidos com as ilimitadas possibilidades de mergulhar numa aventura do divino de Deus e do humano de cada um de nós. Existe o estudo exegético, imprescindível, mas também a possibilidade de uma interpretação pessoal que nos faz sentir que a Palavra é dirigida a nós, nesse dia e nesse momento.
Deus fala através da Sua palavra, que é o Verbo feito carne, feito Pão, feito Livro, feito Vida na nossa vida. Um dos textos admiráveis é aquele em que, em S. João, as pessoas que se dirigem a João Baptista e insistem com ele para que se identifique. “Quem és tu?” Esta pergunta repete-se, insistente e teimosa, no diálogo, com suposições sobre se ele era o Elias, se era o Messias… João responde que não era… “Então quem és tu?” E ele responde finalmente: “Eu sou a sua voz”.
É muito importante saber quem somos. A descoberta do nosso ideal pessoal de vida, da nossa vocação, do nosso ser de personalidade, é fundamento para podermos criar algo, realizar algo, sobretudo a vontade de Deus. Não posso ser um cego a conduzir outro cego. Tenho de saber quem sou, para o que sirvo, que capacidades ou limitações tenho para desempenhar corretamente a minha missão. Eu tenho uma missão. Eu tenho sobre mim um chamamento. “Diz-me quem és tu para eu dizê-lo aos que me enviaram”, disseram a João Baptista. E ele disse: Eu sou… a voz. Para que serve a voz? Para transmitir a Palavra. Quando a voz se cala, o que é que fica? O seu eco? Sem dúvida. Mas dentro de quem ouve, fica a Palavra. E esta é como a chuva. Diz Isaías: “Não volta para a sua origem sem ter produzido o seu efeito”. Sem ter realizado a sua missão. João não se pregava a si mesmo. Tinha consciência disso. Por isso não buscava ocupar o lugar principal. Ele procurava servir a Palavra. Tinha de ser a voz. Mas o que interessava era a Palavra do Pai, ou seja, Jesus… Servidos da Palavra. “Que Ele cresça e que eu diminua”, era o que desejava.
Reparei, algumas vezes, como há pessoas que anseiam, na Igreja, por ter acesso ao microfone nas celebrações. Querem falar à comunidade. Querem dizer das suas ideias. E quando têm acesso por consentimento do celebrante, que desfile de vanglória e busca própria.
A Voz não se prega a si mesmo, ainda que seja padre ou bispo. A Voz prega a Palavra, objetivamente. Não fala na primeira pessoa, fazendo do seu ministério, seja ele qual for, colheita de louros e elogios, admirações e amizades. A Voz fala da Palavra. Por vezes essa Palavra incomoda. Não é doce de se ouvir por ser exigente. Assim diziam de Jesus: “Que linguagem tão dura, quem a pode ouvir?” A Palavra acolhe sempre. Mas não existe para brincar com o sério, embora seja a fonte da alegria. Daí, que, tendo a Voz que era João se calado definitivamente, a Palavra se apresentou. Jesus caminhou pelos nossos caminhos e João não apareceu mais nas narrações. Depois, a Palavra voltou a esconder-se e surgiram outras pessoas que são a Voz: apóstolos, discípulos, padres, catequistas, bispos, Papa, movimentos, cursos, encontros, livros… Mas tudo isso para o serviço da Palavra. De tal modo que, quando à Palavra Lhe interessar, desaparece a Voz, da qual, passado um tempo, ninguém se lembrará mais. E fica a Palavra, semeada e colhida no coração dos homens. O destino da Voz? Desaparecer depois de servir. Quem fica quando a Voz se cala? Só a Palavra.
Vitor Espadilha
