Depressão

Saúde Cerca de 20% das pessoas portuguesas terão uma depressão forte num determinado período das suas vidas. A maioria dos suicídios cometidos todos os anos no nosso país está ligada à depressão. A depressão causa incapacidades, perda de anos de vida e contribui para a redução da qualidade de vida. Os custos pessoais e sociais da doença são muito elevados. Esta encontra-se reconhecida no Plano Nacional de Saúde como um problema primordial de saúde pública. Texto de José Carlos A. Costa

O que é a depressão?

A depressão é um conjunto de sentimentos de tristeza, desalento, pessimismo e uma perda geral de interesse na vida, combinados com um sentimento de mal-estar físico e de incapacidade generalizada. A maioria das pessoas experimenta ocasionalmente estes sentimentos como reação normal a um dado acontecimento. Assim, por exemplo, é natural sentirmo-nos deprimidos com a morte de um parente. Porém, se a depressão ocorre sem causa aparente, demasiado profunda e persistente, assume então o caráter de depressão patológica. Em casos extremos, os pacientes podem ter ideias delirantes, concordantes com o humor deprimido, a autoestima muito baixa e pessimismo geral, sendo frequentes os delírios de ruína, sentimentos de culpa e de doença.

A intensidade dos sintomas pode variar com a hora do dia. Com efeito, na sua maior parte, as pessoas deprimidas sentem-se ligeiramente melhor à medida que o dia avança, mas algumas pessoas pioram à noite. Se a doença depressiva evolui sem tratamento, os sintomas tornam-se cada vez mais evidentes. A pessoa pode retrair-se completamente e passar a maior parte do tempo na cama, isolada de tudo e de todos ou manifestar ideação suicidária, marcada por tentativas de suicídio repetidas ou mesmo concretizadas.

Principais causas

Em geral, uma doença depressiva não tem uma causa única evidente. Pode ser desencadeada por certas doenças físicas (como uma infeção viral), por desordens hormonais (como hiper/hipotiroidismo) ou pelas alterações hormonais que ocorrem depois do parto (depressão pós-parto). Alguns medicamentos são fatores contributivos. Se a crise depressiva se enquadrar na doença maníaco-depressiva, a hereditariedade pode desempenhar o seu papel, pois esta doença tem uma nítida incidência familiar.

Além das causas biológicas, são fundamentais os fatores sociais e relacionais. A ausência de uma relação mãe-filho satisfatória pode conduzir à depressão infantil e prolongar-se em estádios posteriores da vida, sobretudo quando agravada por circunstâncias sociais difíceis. Por exemplo, uma mulher cuja mãe tenha morrido cedo ou sido uma criança abandonada ou mal cuidada pode ser particularmente vulnerável e insuficiente quando ela própria for mãe. As crises depressivas estão diretamente relacionadas com acontecimentos perturbadores e com fases críticas do ciclo vital da pessoa, sendo os períodos de maior risco a adolescência, a maternidade e a velhice.

Incidência

A depressão é a doença psiquiátrica mais comum. Cerca de 20% das pessoas sofrem de depressão num dado momento da vida, especialmente nas formas mais ligeiras. A doença maníaco-depressiva, mais grave, afeta apenas 1 ou 2% das pessoas deprimidas, mas a incidência de todas as formas de depressão aumenta com a idade, o que pode dever-se a isolamento, enfraquecimento das capacidades mentais e doença congénita.

A depressão parece ser mais comum entre as mulheres, cifrando-se em cerca de um em seis o número daquelas que, num dado momento da sua vida, procuram ajuda especializada para a depressão (em contraste com a proporção de um em nove homens). Esta diferença pode resultar de uma maior incidência feminina ou apenas do facto de as mulheres estarem mais recetivas a consultar o médico, enquanto os homens recorrerão com mais frequência ao álcool, à violência ou a outros equivalentes depressivos.

Prognóstico

Embora a doença depressiva seja uma causa vulgar de dificuldades e de problemas sociais, o prognóstico é bom em relação à maior parte dos doentes que tenham tratamento e vigilância adequados. O principal risco é o suicídio. Nas sociedades ocidentais, a taxa de suicídios é de cerca de 20 por 100 000 habitantes, e pelo menos 80% destas mortes estão relacionadas com a depressão. A taxa é mais elevada entre os homens idosos socialmente isolados e fisicamente doentes, mas está a aumentar entre as camadas mais jovens.

As pessoas com depressão grave e prolongada (especialmente os idosos) podem precisar de tratamento contínuo. Em contrapartida, muitas pessoas que sofrem de depressão não precisam de internamento hospitalar e recuperam bem.

Alguns sintomas

da depressão

Estes variam com a gravidade da doença. Numa pessoa com depressão ligeira, os principais sintomas são a ansiedade e um humor instável, e, por vezes, crises de choro sem razão aparente. A vítima de uma depressão mais séria pode sofrer de falta de apetite, dificuldade em dormir, falta de interesse e de prazer nas atividades sociais, sensação de cansaço e falta de concentração. Os movimentos e o raciocínio podem tornar-se mais lentos, em alguns casos, porém, acontece o contrário e a pessoa torna-se extremamente ansiosa e agitada. As pessoas gravemente deprimidas podem ter ideias de morte e/ou de suicídio e alimentar sentimentos de culpa ou de inutilidade.

Três características típicas da depressão:

• Alteração inexplicável do humor, por mais de um dia;

• Perda do interesse pela vida e do prazer;

• Diminuição acentuada da energia física ou surgimento súbito da fatigabilidade.

Quatro dos principais sintomas:

• Perda da confiança ou da autoestima;

• Sentimentos de autorreprovação ou de culpabilidade;

• Pensamentos recorrentes de morte ou suicídio;

• Distúrbio do sono sem causa aparente.

Como se previne

a depressão?

• Estar ocupado e ter objetivos definidos;

• Ser sociável e estar integrado no projeto de vida familiar e comunitário;

• Ter uma vida mental saudável, ultrapassando os medos e cultivando o otimismo;

• Ser rápido e determinado na procura de apoio.

Teste: Tem propensão para a depressão?

Esta técnica de diagnóstico consiste em trinta perguntas que são dirigidas à pessoa suspeita de depressão. Responde-se com um sim ou não. Na próxima semana, daremos a chave para conhecer os resultados deste questionário.

1. Está satisfeito(a) com a sua vida?

2. Colocou de lado muitas das suas atividades e interesses?

3. Sente a sua vida vazia?

4. Fica muitas vezes aborrecido(a)?

5. Tem esperança no futuro?

6. Anda incomodado(a) com pensamentos que não consegue afastar?

7. Está bem-disposto(a) a maior parte do tempo?

8. Tem medo que lhe vá acontecer algo de mal?

9. Sente-se feliz a maior parte do tempo?

10. Sente-se muitas vezes sem auxílio/desamparado(a)?

11. Fica muitas vezes inquieto(a) e nervoso(a)?

12. Prefere ficar em casa a sair e fazer coisas novas?

13. Preocupa-se muitas vezes com o futuro?

14. Pensa que tem mais problemas de memória do que os outros?

15. Pensa que é bom estar vivo(a)?

16. Sente-se muitas vezes desanimado(a) e abatido(a)?

17. Sente-se inútil?

18. Preocupa-se muito com o passado?

19. Considera a vida interessante?

20. É difícil começar novas atividades?

21. Sente-se cheio(a) de energia?

22. Sente que a situação é desesperada?

23. Pensa que a situação da maioria das pessoas é melhor do que a sua?

24. Aflige-se muitas vezes com pequenas coisas?

25. Tem dificuldades em se concentrar?

26. Gosta de se levantar pela manhã?

27. Prefere evitar encontrar-se com muitas pessoas?

28. Tem dificuldade em tomar decisões?

29. O seu pensamento é tão claro como era antes?

30. Houve perda de qualidade do sono?