Excertos das homilias do Bispo de Aveiro no tríduo pascal Dom de Deus para a vida da Humanidade
Somos, irmãos sacerdotes, sacramentalmente sinais do dom de Deus para a vida da humanidade. E este sinal não se escreve em carta de missão onde o trabalho se define ou em pormenores de ação onde a missão se descreve, mas sim na oferta plena da nossa vida, no dom total de nós mesmos, feito com alegria e com esperança.
Conhecemos as nossas fraquezas e limitações, mas nem isso nos intimida diante da grandeza da missão nem nos perturba perante a dimensão da responsabilidade. Deus, também aqui, transcende a nossa fragilidade pela beleza do seu amor. E deste amor de Deus em nós expresso e da permanente generosidade que o amor de Deus em nós inspira, irradia a beleza do serviço a que Deus nos chama e que a Igreja nos pede.
Caros sacerdotes: conheço a vossa generosidade e disponibilidade, fonte de fecundidade apostólica, de quem tantas vezes se excede em dedicação e trabalho para que os dons de Deus se multipliquem e tornem visíveis no serviço da Igreja e no coração do mundo.
Somos pastores e guias de uma humanidade que não parou no tempo, que não é estática e que não se pode fechar aos desafios da cultura. Somos chamados a compreender, acompanhar e iluminar este caminho da humanidade.
Da Missa Crismal,
Quinta-feira Santa, 5 de abril
Aprender com o exemplo de Jesus
Cada vez mais as comunidades cristãs sabem que a Eucaristia é o centro e o vértice da fé, da oração, do culto e da vida da Igreja. Aí, à volta do altar, se faz memorial vivo da Páscoa do Senhor e aí o povo de Deus peregrino alimenta-se da Palavra de Deus e do Pão da Vida.
O gesto simbólico do Lava-pés (…) significa isto mesmo: um serviço de amor em favor dos seus discípulos. (…) Que seja, assim, a nossa Páscoa inspirando à Igreja novas formas de servir, lavando os pés feridos de tantos caminhantes de vidas de dor, acolhendo quem nos procura e procurando aqueles que andam dispersos, alimentando os que não têm mesa nem pão e celebrando a Eucaristia como dom sempre novo numa Igreja renovada.
Há tantas formas de aprender o exemplo de Jesus e há tantas maneiras criativas de cumprir o imperativo de Jesus!
Da Missa da Ceia do Senhor, Quinta-feira Santa, 5 de abril
Cumpre-nos estar presentes na dor
Diante da dor e do mal não nos pertence apenas esperar compreensão e receber ajuda dos outros quando somos nós a sofrer. Cumpre-nos estar presentes, também nós, junto de quem sofre com um coração capaz de se compadecer, com uma palavra iluminada pela fé e com gestos de íntima e verdadeira comunhão, que possam aliviar o seu sofrimento e repartir o peso da sua cruz.
Que, ao contemplar o testemunho maior de Jesus, que nos amou até á entrega plena da vida, saibamos nós também dar a nossa vida em gestos de presença e de comunhão com quem sofre! Que diante da dor humana possamos testemunhar um amor que não é apenas nosso mas que vem de Deus e que em nós se espelha e torna presente!
Ousemos em momentos humanamente quase superiores às nossas forças ser testemunhas de Deus, que não quer nem o mal nem a morte mas sim a vida e o bem!
Da Celebração da Paixão do Senhor, Sexta-feira Santa, 6 de abril
O medo já não tem sentido e a morte já não tem lugar
Celebrar a Páscoa é entender a vida de maneira diferente. Intuir com alegria que Jesus Ressuscitado está vivo, sustentando para sempre tudo o que é belo, bom e límpido e que floresce em nós como primícias de um tempo novo e promessa de infinito.
Jesus Ressuscitado está nas nossas lágrimas e penas como consolação permanente e misteriosa. Está nos nossos pecados como misericórdia e como paciência infinita, que nos acolhe, surpreende e ama até ao fim. Ele está inclusivamente na morte de tantos amigos e familiares nossos que partiram ao encontro do Pai como certeza de vida que triunfa mesmo quando parece extinguir-se. Lembremo-los nesta noite santa.
Diante da certeza da Páscoa o medo já não tem sentido e a morte já não tem lugar. A Páscoa é a festa da vida. O lume novo, a água viva e o batismo, que recebemos e na Páscoa nasceu, dizem-nos esta certeza e são sinais claros, vivos e festivos de que somos testemunhas da ressurreição.
O mundo contemporâneo precisa da Páscoa de Jesus, para aprender a dar a vida por amor e nessa dádiva divina encontrar uma palavra que afague tantos dramas, um olhar que dê luz a tantos olhares que as lágrimas turbam e o pecado magoa e uma vida que alimente de nova e renascida esperança tantas vidas sem sentido, sem pão, sem trabalho, sem horizonte e sem rumo.
Da Vigília Pascal,
Sábado Santo, 7 de abril
