Breves razões para acreditar na Ressurreição (*)

“Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa fé” (1Cor 15,17) 1. Jesus morreu crucificado no dia da Páscoa judaica do ano 30, que, nesse ano, ocorreu numa sexta-feira. Depois de pedir o seu corpo a Pilatos, José de Arimateia enterrou-o num sepulcro da sua propriedade, que se encontrava junto do Gólgota, pouco antes de começar o descanso sabático com o pôr do sol. Mas a narração evangélica não termina com a sepultura de Jesus. Logo os evangelistas informam um facto surpreendente sucedido ao amanhecer do dia de sábado: umas mulheres foram ao sepulcro de Jesus, encontraram afastada a pedra que tapava a entrada e o túmulo vazio. Pouco depois narram a aparição dum anjo portador da grande notícia: Jesus Nazareno, o crucificado, ressuscitou. Os dois principais indícios da ressurreição de Jesus em que se irá centrar a nossa atenção são o encontro do sepulcro vazio e as visões do ressuscitado que, segundo o seu testemunho, alguns dos seguidores de Jesus tiveram.

2. Perguntas a serem feitas: Como é possível que um grupo de judeus não aceitasse como definitivo o juízo do sinédrio? Mais, como é possível que aqueles homens, imediatamente depois da morte do seu Mestre, se atrevessem a pregar que a plenitude da vida humana era concedida ao seguidor de Jesus? Quer dizer, como se explica que propusessem publicamente este condenado como salvador dos homens, como aquele que obtém o perdão dos pecados e restabelece a amizade com Deus?

3. A única explicação possível é a ressurreição de Jesus. O início da Igreja… é precisamente este conjunto de discípulos, este grupinho de amigos que depois da morte de Cristo ficam juntos na mesma. Porquê? Porque o Cristo ressuscitado se torna presente no meio deles. Sem a ressurreição de Jesus também seria um enigma a celebração do domingo desde a aurora do cristianismo. Recorde-se que os primeiros membros da Igreja são todos judeus. Estes celebravam o sábado como dia santo, conforme estabelecido pela Lei mosaica. Se se prescinde do acontecimento da ressurreição de Jesus não existe nenhum motivo para que este grupo judeu mudasse a celebração do dia santo e, em vez do sábado, preferissem o dia seguinte, denominado “domingo” em honra do seu Senhor.

4. Partindo do pressuposto que o relato do encontro do sepulcro vazio seja uma invenção cristã, tornam-se incompreensíveis duas peculiaridades do mesmo. Em primeiro, a atribuição da descoberta a mulheres. No judaísmo da época de Jesus as mulheres não eram testemunhas válidas (cf. Lc 24,11). Se estamos perante um relato inventado, o mais lógico teria sido identificar os seus protagonistas com homens. Esta peculiaridade só é explicável na hipótese de terem realmente sido mulheres que, ao visitar o sepulcro na manhã daquele dia, o encontraram vazio. Em segundo, as indicações do tempo que servem para designar o momento em que teve lugar a surpreendente descoberta. Embora em formulações diferentes, chama a atenção a coincidência dos evangelistas: no terceiro dia após a sua morte na cruz. Para dizer a verdade, nenhum texto profético do Antigo Testamento anuncia a ressurreição de Jesus ao terceiro dia. Os evangelistas repetem invariavelmente este dado cronológico por fidelidade ao acontecimento da descoberta do sepulcro vazio, que teve lugar ao terceiro dia da morte e sepultura de Jesus.

5. Os relatos evangélicos descrevem os discípulos abatidos, derrotados por causa da condenação e morte de Jesus; cheios de temor, fecham-se na sala superior onde celebram a última ceia. Só as aparições de Jesus ressuscitado fizeram brotar a fé na ressurreição. Contra a explicação “psicologista” militam a duração das aparições e a diversidade de pessoas que foram agraciadas com elas. Com efeito, os evangelhos não falam duma aparição somente ao grupo dos discípulos, nem tão-pouco de aparições concatenadas num mesmo dia, em cujo caso a hipótese de alucinação contagiosa seria viável. Os relatos evangélicos, porém, informam acerca de aparições repetidas durante um longo período de tempo a muitas testemunhas diferentes; circunstâncias que tornam inviável a explicação racionalista.

6. Depois de estudar as razões sólidas existentes a favor da historicidade da descoberta do sepulcro vazio e contra a interpretação subjectivista ou alucinatória das visões de Jesus ressuscitado, podemos concluir que em boa crítica histórica, a única maneira de explicar a mensagem da Igreja primitiva sobre a ressurreição é faze-la brotar duma experiência real, não meramente subjectiva, de Jesus ressuscitado por parte das primeiras testemunhas, experiência que temos descrita nos relatos evangélicos das aparições. Com isto não dizemos que a investigação histórica nos introduz no mistério da ressurreição de Jesus: isso só a fé o pode fazer.

(*) FONTE: Resumo, estreitamente pessoal, dos argumentos principais (com modificações e numeração da nossa autoria), desenvolvidos na obra, que recomendamos como leitura fundamental: GARCÍA, José Miguel, As origens históricas do cristianismo, Edições Tenacitas, Coimbra, 2007, capítulos XIII e XIV, pp.223-252.