O órgão da Sé. Um ponto de vista (Conclusão)

DOMINGOS PEIXOTO

Organista e professor, aposentado

5. Há ainda um outro aspeto a considerar. O órgão de tubos não é apenas um instrumento litúrgico, mas, igualmente, um instrumento de cultura. A qualidade da sua construção e potencialidades sonoras atraem geralmente à igreja, não apenas os paroquianos, mas também um público diversificado, apreciador do vastíssimo repertório que muitos dos génios criadores da história da música lhe dedicaram; por isso, a sua construção costuma despertar a atenção dos responsáveis pela cultura. Noutras aquisições semelhantes, nomeadamente no Porto (Sé e Igrejas da Conceição e da Lapa), Leiria e Beja (Sé) e Vagos (Igreja Matriz), diversas instituições públicas e privadas deram a sua contribuição. Trata-se de uma obra que demora mais de um ano, o que permite a sensibilização desses organismos, para que os custos não recaiam exclusivamente sobre a comunidade paroquial.

6. Reparar o órgão histórico? Trata-se, efetivamente, de um restauro, também ele com encargos muito significativos, razão pela qual foi inscrito no projeto “Rota das Catedrais”. Quanto a este ponto, há duas observações a ter em conta. Em primeiro lugar, o contexto religioso para que foram construídos este e muitos outros instrumentos, habitualmente designados “ibéricos”, é bem diferente do pós-conciliar; eles foram concebidos para tocar a solo ou acompanhar pequenos grupos de cantores, não propriamente uma assembleia. Não quer isto dizer que eles não possam continuar a servir a liturgia, como, aliás, acontece com a sua maioria; temos um exemplo em Aveiro, na Igreja da Misericórdia. Porém, o caso da Igreja da Glória é diferente, pelo facto do espaço do templo ter sido substancialmente aumentado nas obras de 1976, tornando o volume deste instrumento – concebido para a igreja conventual dos Padres Dominicanos – insuficiente para o espaço atual.

Em segundo lugar, no que diz respeito ao repertório organístico, a sua estrutura – sem pedaleira e com timbres muito próprios – não permite a interpretação de um número importantíssima de obras da época barroca, romântica e moderna. Reveste-se de grande importância a presença, no coração da cidade e da diocese, de um órgão moderno que possa servir a liturgia e, ao mesmo tempo, a cultura da comunidade, possibilitando a apresentação do repertório “para grande órgão”.

7. Adaptar o órgão histórico às necessidades atuais? Isso significaria destruir as suas características, o que não é admissível em termos de tratamento de uma obra de arte com esta importância e antiguidade. Mas o seu restauro, logo que estejam reunidas as condições para o fazer, permitir-lhe-á que desempenhe um relevante papel, tanto na liturgia – como eventual órgão de coro -, como na parte cultural, através da apresentação do repertório adequado à sua constituição, ou em diálogo com o novo, na apresentação de um vasto repertório concebido para dois órgãos.

8. Um órgão usado, em 2.ª mão? É verdade que têm entrado em Portugal diversos instrumentos usados, provenientes de igrejas de outros países. Há alguns casos em que se conseguiu um razoável enquadramento arquitetónico e uma sonoridade adaptada às dimensões e características do templo. No entanto, trata-se de um implante arriscado, cujos resultados nem sempre são satisfatórios. Por isso, as catedrais portuguesas (Lisboa – 1964, Porto – 1985, Beja – 1996 e Leiria – 1997) optaram pela construção de um instrumento novo, enquadrado, sob o ponto de vista arquitetónico e acústico, na obra de arte que é a sede de uma diocese. E foi também essa a escolha de diversas igrejas paroquiais, algumas bem perto de nós: Vagos (2005), Aradas (1993) e Oliveira do Bairro (1988).

Sem ignorar as dificuldades económicas, outras igrejas paroquiais e sedes de diocese foram capazes de olhar para o futuro e desencadear um amplo movimento de colaboração, que permitiu dotar os templos de um notável instrumento para a liturgia e para a cultura. Os 75 anos do restauro da Diocese de Aveiro são uma boa oportunidade para colocarmos o desafio: se outros conseguiram, por que não havemos também de conseguir?