Sujar as mãos para ter a consciência limpa!

A justiça é uma das bases do equilíbrio na vida social e comunitária; sem ela, não se fale sequer da caridade. Efetivamente, trata-se de fazer e de ver a “a caridade na verdade”; e a justiça autêntica só se realiza cabalmente quando se verifique que é dado a cada um o que lhe pertence, isto é, aquilo a que tem direito, para levar uma vida com a dignidade que a pessoa humana requer.

Em momentos de dificuldade para todos – ou quase! – é normal falar-se ainda mais de direitos aos bens, da sua distribuição justa ou da falta dela, do que se entende por necessidade primária e urgente, o que é isso de supérfluo… Ou então, para nos tranquilizarmos e ficarmos de fora, engrossando o coro dos que dizem que isso há de ser com alguém, mas não comigo: talvez seja com os governantes, com as instituições, com todos, menos comigo!

Quero agradecer ao Senhor Cardeal Gianfranco Ravasi, que presidiu às celebrações deste 13 de maio, em Fátima, a coragem pelo uso de uma linguagem, que não sei se nós, os portugueses, em momento tão solene e de tanta visibilidade, seríamos capazes de utilizar!

Ele disse nada menos do que isto: “Não devemos ter medo de sujar as mãos, ajudando os miseráveis da terra”! (Ver pág. 05).

Na verdade, quem convive com os miseráveis, os desalinhados, os sem casa, os sem roupa, os sem sabonete, os sem pente nem espelho, os sem gilete, os sem escova de dentes, os sem meias para mudar todos os dias… pode acabar com as mãos sujas; sem dúvida. Mas pode aí também encontrar a paz da consciência, porque está a lutar pela dignidade das pessoas, sem atirar para outros aquilo que é do seu dever, e urgente!

Sujar as mãos com pessoas, nossas irmãs, e reais imagens de Cristo, Mestre e Senhor, nunca será sujar. E o mesmo Senhor Cardeal acrescenta, reforçando: “De que servirá ter as mãos limpas, se as tiver no bolso?”

A tentação é sempre essa: como quem sofre da pobreza ou da miséria nem sou eu, nem o meu familiar, nem sequer vejo tais situações, tudo me passa ao lado, porque há de haver alguém que resolva.

Jesus um dia disse aos Discípulos, perante uma multidão de esfomeados: “Dai-lhes vós de comer”; e Ele sabia bem onde estava a solução; mas não deixou de os questionar, nem de os levar a partilhar o que tinham consigo.

Hoje mesmo um jornal diário, de expansão nacional, dizia que a “crise económica já chegou às ofertas nas missas e a quebra ronda os 10%… Este foi o resultado de um pequeno inquérito de 15 paróquias de sete dioceses do país. A média de diminuição é de quase 10%, mas há casos em que a quebra chega aos 30%”(Público,13-05-2012). Mas se retirarmos a estes ofertórios a dimensão sócio-caritativa, eles podem ainda baixar muito mais!

É urgente apelar a uma “fraternidade operativa”, e não apenas vagamente evangélica, de um amor que se anuncia, mas sem força mobilizadora; não basta dizer que Deus nos ama; é preciso dizer que Ele nos manda amar. E é preciso dizer que não basta – nem é possível – amar a Deus, sem amar os outros.

Em Fátima estava uma das maiores peregrinações de sempre; estavam presentes 22 bispos; 265 sacerdotes; alguns diáconos; muitos religiosos e religiosas; alguns milhões nas rádios e televisões: todos ouviram, numa expressão forte, a concretização do Mandamento do Amor.

Foram queimadas mais de 30 toneladas de velas: acredito que, em cada vela, iria um drama, talvez de um desempregado, de um jovem sem futuro à vista, de uma criança sem condições de poder olhar a vida com otimismo, de um doente com fortes interrogações, de um idoso em solidão, de um casal que teve de entregar a casa ou o carro ao banco, de uma família que faz de uma sopa a sua refeição… De pessoas que vivem “horas noturnas do mal, do medo e da dor”, num “horizonte gélido e sombrio do sofrimento”(Card. Ravasi).

As notícias do nosso país também nos alertam para o número crescente dos beneficiários do rendimento social de inserção (RSI): ultrapassam as 329 274 pessoas, o valor mais alto desde novembro de 2010.

Em março deste ano foram mais 6359 pessoas a pedir o RSI, mais cerca de 12 000 desde o início do ano corrente! A Segurança Social afirma que é já o 5.º mês consecutivo de subida, e acrescenta que vai agravar-se, como facilmente se depreende, frente ao desemprego, e às dificuldades crescentes de ingressar no mercado de trabalho.

O que ainda vai mantendo muitas famílias sem terem de recorrer ao RSI são as economias que ainda guardavam e os apoios de alguns familiares, mas que também depressa se esgotam. O Banco Alimentar Contra a Fome adotou o slogan: “A pobreza pode estar escondida na porta ao lado”! Todos temos disso a maior e a mais dramática certeza.

Sujar as mãos? Vamos a isso, todos, e já! Será uma das maneiras de cumprir a justiça, praticar a real caridade e manter limpa a consciência.