Coragem

1. Os proveitos políticos que possa colher da sua decisão não obscurecem a coragem do novo Presidente da República de França, ao diminuir drasticamente os salários milionários dos gestores máximos das grandes empresas.

Não sucedeu nenhuma hecatombe! O escândalo da superabundância de alguns foi neutralizado em benefício da melhoria de muitos dos mais carenciados. Chama-se a isto a coragem de avançar com medidas que promovam a justiça social.

Compare-se esta situação com a nebulosidade que continua a pairar sobre os grandes processos da justiça portuguesa – desde o longínquo acidente que vitimou Sá Carneiro, passando pelos processos Casa Pia, Face Oculta… Ou atente-se na timidez de controlar os executivos dos milhões, cérebros indispensáveis – assim parece! –, que não podemos perder e que, portanto, temos de pagar a peso de ouro, em detrimento de uma multidão imensa que se debate no pântano da pobreza e corre o risco de se afundar na miséria!

Quem assume servir a “coisa pública” tem de ser imune a influências de clientelas, vacinado contra o vírus dos interesses pessoais, dos jogos ocultos. E, nesse aspeto, são já demasiados os casos daqueles que se envolveram em malhas duvidosas ou mesmo criminosas, para que não tenhamos de fazer um profundo exercício de vontade em ordem a acreditar que ainda é possível encontrar políticos honestos. Deem-nos uma prova de coragem na limpeza da casa! Será a melhor forma de nos convencerem a lutar pelo futuro!

2. O Santo Padre esteve, estes dias, no VII Encontro Mundial das Famílias, que teve lugar em Milão. As suas palavras foram de extrema coragem e um desafio à coragem: das pessoas, dos casais, da sociedade.

Numa breve síntese sobre a intervenção do Papa, o bispo e teólogo Mons. Bruno Forte sublinha alguns aspetos dessa coragem necessária. Desde logo, a afirmação inequívoca na natureza e missão da Família: “Seio do futuro, a família é a escola de vida e de fé, na qual crianças, adolescentes e jovens podem aprender a amar a Deus e ao próximo; e os idosos, raízes preciosas, podem, por sua vez, sentir-se amados. A família é, assim, sujeito ativo no caminho da comunidade cristã e da sociedade civil, não somente destinatária de iniciativas, mas também protagonista do bem comum em cada um dos seus componentes”. É precisa a coragem da família, para se recriar em si mesma; é fundamental o arrojo dos poderes públicos, para se deixarem de pretensas modernidades e promoverem o cerne da estabilidade social.

As exigências da recriação da família passam, antes de mais, pela coragem dos cônjuges: no respeito pelo outro, no esforço de o entender, na iniciativa de oferecer e pedir o perdão, na transparência, no respeito pelos filhos e no diálogo com eles como seres livres e capazes de responsabilidade… Muita coragem necessária para um estilo de vida que o mundo atual não aprecia, antes condiciona e enfraquece!

E, se pensamos no mundo do trabalho, na consideração do seu exercício, mesmo o do trabalho doméstico, como caminho de realização pessoal, fomento da vida familiar e proveito da comunidade, quanta coragem falta!… Para deixar de medir a pessoa pela vertente economicista em proveito da sua realidade humanista!