Um caminho novo com fronteiras alargadas

No mesmo dia (21-11-1964), Paulo VI promulgou a Constituição sobre a Igreja e os decretos sobre o Ecumenismo e as Igrejas Orientais Católicas.

O problema do ecumenismo vinha de longe e acompanhou as preocupações do Concílio, desde a sua preparação. João XXIII declarara que o Concílio tinha também como finalidade descobrir e abrir caminhos de unidade entre as diversas confissões cristãs.

O Cisma do Oriente (séc. XI) marca a primeira rutura com a Igreja de Roma. Depois foi a Reforma com a cisão dos luteranos (séc. XVI) e dos anglicanos (séc. XVI). Tudo isto eram como que espinhos dolorosos no corpo eclesial. As preocupações de unidade, volvidos séculos, passaram a viver-se, inicialmente, por iniciativa dos anglicanos, traduzida em oração pela unidade, a que outras Igreja se associaram no Oitavário de Oração pela Unidade dos cristãos, de 18 a 25 de janeiro. Com o Concílio deu-se a possibilidade de um diálogo teológico, nem sempre fácil, mas sereno. Teólogos de grande prestígio, como o padre Congar, vinham-se já dedicando, à data do Concílio, a esta difícil mas urgente tarefa de se procurarem caminhos aptos e de entendimento para a união dos crentes em Jesus Cristo.

João XXIII, numa decisão ao seu jeito, convidou, inesperadamente, observadores para as sessões conciliares, membros de diversas confissões cristãs. O facto não agradou a alguns setores da Igreja Católica, como, já antes, não agradaram iniciativas de outras tradições religiosas. Esta inovação continuou nos sínodos episcopais que se seguiram ao Concílio, com uma evolução significativa: os que começaram por ser “Observadores”, pouco mais tarde já foram ditos “Irmãos”.

O progresso feito de há cinquenta anos para cá era impensável para muita gente. De facto, vários caminhos se abriram e se enfrentaram, corajosamente, muitos problemas difíceis.

O decreto conciliar, então promulgado, foi, em muitos aspetos, inovador. Nele estão marcados pontos de partida, como a aceitação mútua de que há uma única Igreja de Jesus Cristo, e esta deve expressar a sua comunhão na unidade. Não se trata de uma conversão à Igreja Católica, mas de uma conversão de todos, de modo a chegar-se, mutuamente, ao respeito, ao diálogo, à aceitação de tradições válidas, a um esforço de purificação e de aproximação. O Concílio sublinha ainda o valor da oração. Só o Espírito é verdadeiro obreiro da unidade e da formação ecuménica que leva ao conhecimento das diferenças pela vontade de escutar, aprender e receber, como dom de Deus, o que de cada lado pode enriquecer a fé comum.

O tema do Ecumenismo, a partir de então, nunca mais deixou de merecer a atenção especial dos Papas. Paulo VI criou um dicastério romano dedicado à união dos cristãos, a fim de fomentar a unidade nas suas diversas vertentes; constituíram-se grupos de teólogos das diferentes tradições para aprofundar temas doutrinários e clarificar problemas históricos; realizam-se, agora, ações em comum, como publicação da Bíblia Ecuménica e encontros europeus sobre variados temas; publicou-se o Diretório Ecuménico… João Paulo II, num gesto corajoso e profético, pediu que se aprofundasse o sentido do Primado do Papa, Bispo de Roma, pois não queria que uma interpretação histórica parcelar deste Primado pudesse dificultar a unidade desejada.

O caminho continua com escolhos, mas a relação fraterna é crescente. Recordo, com emoção, como o arcebispo de Upsala, na Suécia, primeira figura da hierarquia religiosa luterana no país, recebeu, em sua casa e na sua catedral, os bispos do Conselho das Conferências Episcopais da Europa, de cujo grupo fiz parte. Conviveu, rezou, partilhou connosco a preocupação das suas comunidades, tocadas pela secularização e acomodadas, no seu bem-estar, a um cristianismo fácil e sem horizontes. O encontro decorreu numa casa da Igreja luterana, onde não faltou uma sala apta para a celebração eucarística.

O Concílio, no decreto referido, exorta, por fim, os fiéis a que, reconhecendo os sinais dos tempos, participem com solicitude do trabalho ecuménico. Sabemos bem, que nas comunidades católicas, debeladas que foram as desconfianças e juízos negativos, resta muito caminho para andar, a que não é estranha a pouca cultura que confunde Igreja e seitas, estas que nada querem com o ecumenismo a sério, que luta pelo encontro de todos os batizados na única Igreja de Cristo.