Começa amanhã, 28 de junho, e decorre até 1 de julho, a 5.ª feira do mirtilo, em Sever do Vouga. São esperados 55 mil visitantes na terra que se assume como “capital do mirtilo”. O Correio do Vouga foi conhecer este fruto cada vez mais procurado pelas suas propriedades milagrosas e a principal empresa do setor, a Mirtilusa. Reinaldo Barnabé, antigo bancário em Sever do Vouga e diácono permanente ao serviço de paróquias de Albergaria, está desde 2010 à frente desta empresa que promove o cultivo do mirtilo, efetua a sua divulgação, presta apoio técnico aos produtores, comercializa este fruto.
Correio do Vouga – Quantos sócios tem a Mirtilusa?
Reinaldo Barnabé – A Mirtilusa, sociedade hortofrutícola fundada em 1994, tem 48 sócios produtores, mais 56 produtores amigos. Em breve esperamos acolher mais 60 produtores que já estão sinalizados, já fizeram as suas plantações e daqui a algum tempo estarão a produzir.
Como é que o começou este seu empenho nesta atividade?
Eu era bancário em Sever do Vouga. Fui talvez à primeira palestra sobre os mirtilos, na Fundação Barbosa de Quadros. Levei dois pés para casa, mas acabaram por desaparecer. Houve então um entusiasmo muito grande por aqui. Entretanto, recebi terras como herança dos meus sogros. Para não ficarem com silvas, plantamos mirtilos. Foi a nossa aventura, há 17 anos.
Foi dos primeiros produtores?
Sou da segunda geração. A primeira foi há 20 e poucos anos. Eu sou de 1997.
Diz-se que foram os holandeses que trouxeram o mirtilo para Sever. Confirma?
Sim. O mirtilo veio parar aqui porque dois engenheiros da Fundação Lockorn estiveram na cooperativa de Sanfins, propondo alternativas à nossa agricultura de subsistência, centrada no vinho americano e no milho. Verificaram que o clima era ótimo, tal como o solo. Essa fundação esteve connosco e ao fim de seis/sete anos começamos a navegar sozinhos.
Qual a origem desta planta?
O mirtilo tem a sua origem na América, embora se encontre na Europa e mesmo em Portugal, selvagem, no Gerês. Temos aqui na Mirtilusa uma engenheira que fez um mestrado sobre o mirtilo selvagem do Gerês. Mas foram os Estados Unidos que arranjaram a variedade que cultivamos e a domesticaram.
Qual o peso da economia do mirtilo em Sever do Vouga?
Nós transacionamos cerca de 80 toneladas de mirtilo por ano. No ano passado pagámos por cada quilo à volta de 4 euros; há dois anos pagamos 4,5 euros, fornecendo nós o vasilhame todo.
Um produtor pode viver só do cultivo do mirtilo?
A economia rural de Sever do Vouga não se pode sustentar só com o mirtilo, no estado em que a propriedade está, porque vivemos numa região de “mini minifúndio”. Temos agricultores com leiras de 700 ou 800 m2 de mirtilo. Um dos mais velhos cultiva, no total, 4200 m2 de mirtilo. Ora, os novos agricultores só se podem candidatar se tiverem uma área igual ou superior a 10 000 m2, ainda que seja permitido cultivar outras espécies. Tem de mostrar que é rentável viver dali. A este agricultor de 4200 m2 pagámos no ano passado 16 mil euros. Posso revelar estes números porque todos os agricultores de mirtilo têm atividade aberta nas finanças. Não há recebimentos por fora. Tudo está legalizado.
O que produzem na Mirtilusa tem como destino principal que países?
França, Alemanha, Holanda, Inglaterra, e países da Escandinávia, através de uma empresa que compra aqui. Em Portugal, no ano passado ficou 24, 5 por cento da produção. Sabemos, no entanto, que alguma desta produção ainda foi para fora.
Desde que uma pessoa compra aqui um vaso com um pé deste arbusto, até ele dar fruto, quanto tempo vai?
O mirtilo é um arbusto que se reproduz por estaca. Leva um ano a ganhar raízes, de novembro a outubro. Depois é envazado e pode estar até ao outubro seguinte no vaso. Finalmente vai para a terra. Dois anos depois, está a produzir com valor comercial. Portanto, podemos dizer que demora quatro anos até estar a produzir bem.
Quantos quilos pode dar um destes arbustos?
Há muitas variáveis. Uma boa planta pode dar 9 ou 10 quilos, se eu a tratar muito bem. Num pomar, cada uma dá média dos 4,5 quilos. O mirtilo produz entre finais de maio e meados de agosto. O mirtilo pode ser consumido até 10 ou 11 dias depois de ser apanhado. Como todas as terças e sextas-feiras saem das nossas câmaras frigoríficas carregamentos de mirtilo, nós nunca o temos cá mais de três dias. E seguramente chega ao consumir somente quatro, cinco ou seis dias depois de ser apanhado.
Quanto custa um pé de mirtilo? Qualquer pessoa pode vir aqui comprar?
Uma planta só, nos nossos viveiros, custa à volta de seis euros. Mas se comprar quatro mil plantas, fica a 4 euros por planta. Todos podem comprar, sejam sócios ou não.
Diz-se que este fruto é milagroso…
O fruto é rico em antioxidantes, mas também as folhas, que servem para fazer chá. O mirtilo contribui para uma boa visão, reduz a degradação das funções cerebrais, ajuda a evitar alguns tipos de cancro, diminui a probabilidade de problemas cardíacos, alivia sintomas de infeções urinárias, melhora a miopia. Sabia que os aviadores ingleses, na II Guerra Mundial, comiam mirtilos para ter melhor visão noturna? Isto é da História. O mirtilo contribui para a cura de inflamações bocais, fortalece as paredes dos vasos capilares, melhora a memória, previne as cáries, reduz infeções do aparelho reprodutivo, previne complicações de diabetes, atua sobre doenças das gengivas, combate o colesterol…
Há outras formas de consumir este fruto sem ser fresco?
Sim, come-se como fruto simples, mas também na pastelaria, nos chocolates, em compotas e até em pratos de carne, como começa a aparecer em revistas de culinárias. Este fruto está a ser estudado por três universidades, no Projeto Myrtillus, que tem como cabeça a Mirtilusa, mas cujos motores são as universidades UTAD (de Vila Real) a Católica e a de Medicina do Porto, além da empresa Frulact. Trata-se de um projeto de quase 600 mil euros.
O que pretende o projeto?
Pretende estudar a planta para conhecer cientificamente as suas vantagens e desenvolver novos produtos à base de mirtilo. Nós hoje, para metermos um produto no mercado, para apresentamos os benefícios para saúde, temos de estar homologados pelos serviços de saúde e económicos. Estas universidades está a estudar cientificamente o mirtilo.
Quer dizer que a Mirtilusa pode expandir-se para novos negócios?
Em princípio poderá. Nós somos uma sociedade hortofrutícola, não uma agro-indústria. Se entrarmos nesses campos, temos de modificar as nossas estruturas de produção e de transformação. Colocar novos produtos no mercado, que deem rentabilidade, envolve um grande investimento. Mas haverá sempre parceiros interessados.
