Da fé professada à fé vivida

Estamos no limiar de três grandes acontecimentos eclesiais: a comemoração dos 50 anos do Concílio vaticano II, o Ano da Fé proclamado por Bento XVI, a Missão Jubilar na Diocese de Aveiro, a celebrar os 75 anos da sua restauração.

Este é o tempo oportuno que Deus nos concede, para intensificar a “reflexão sobre a fé, para ajudar todos os crentes em Cristo a tornarem mais consciente e a revigorarem a sua adesão ao Evangelho, sobretudo num momento de profunda mudança como este que a humanidade está a viver”… – Bento XVI, PF, 8.

Um dos esforços mais notáveis de muitas Igrejas locais tem sido a multiplicação de ofertas de itinerários de aprofundamento da fé aos seus fiéis. Sobre o essencial do que é a fé professada, o seu enquadramento face às novas problemáticas que todos os dias afloram no quotidiano das pessoas e nas conjunturas sociais. E sempre na perspetiva de que as suas vidas se tornem interpelação para os que navegam nas águas da indiferença ou mesmo da hostilidade. Com a adesão entusiasta de alguns, é verdade; mas também com a empedernida rotina de muitos outros.

Este é um tempo oportuno! A diversidade de motivações, as múltiplas formas de provocação, a convocação de todos, as circunstâncias de dificuldade sensível na vida de muita gente…, será que terão impacto bastante para despertar a letargia de uma grande fatia dos crentes em Cristo? Esperamos que sim!

O propósito destas iniciativas bem se pode colher da Porta da Fé: “Descobrir novamente os conteúdos da fé professada, celebrada, vivida e rezada, e refletir sobre o próprio ato com que se crê, é um compromisso que cada crente deve assumir”, PF, 9.

Importa superar a confrangedora ignorância de muitos, mesmo “praticantes” habituais, em relação às verdades da fé, dando razão a quantos pensam e afirmam que a fé é um estádio primitivo de conhecimento. Mas não é menor a necessidade de superar a ideia de que a fé é uma gnose, uma súmula de conhecimentos. Urge transformar o que se crê em relação celebrativa com Aquele que se acredita e com os outros que acreditam.

Mais um passo, para uma fé autêntica: o que se crê e se celebra, tem de projetar-se nas atitudes, nas ações do quotidiano. A fé sem obras é morta! A fé professada não é verdadeira, se não se traduz em fé vivida. O Vaticano II já o advertia: “O divórcio entre a fé que professam e o acompanhamento quotidiano de muitos deve ser contado entre os mais graves erros do nosso tempo. Já no Antigo Testamento, os profetas denunciam este escândalo; no Novo, Cristo ameaçou-o ainda mais veementemente com graves castigos. (…) O cristão que descuida os seus deveres temporais, falta aos seus deveres para com o próximo e até para com o próprio Deus, e põe em risco a sua salvação.” – GS 43.

E uma pessoa que estrutura e vive assim a sua fé não pode deixar de respirar um clima orante. Beber do Alto e volver ao Alto, para se inspirar no dia a dia, para agradecer o tempo vivido será uma exigência íntima. A fé não pode deixar de ser rezada!