Júlia d’Almendra (1904-1992) morreu há 20 anos. Foi uma figura destacada da música sacra em Portugal no séc. XX, pelo seu trabalho no canto gregoriano e na organística. Primeiro de uma série de três artigos. DOMINGOS PEIXOTO
Organista e professor, jubilado
Júlia d’Almendra deixou-nos no dia 22 de setembro de 1992, fez agora 20 anos; e celebra-se a 3 de outubro o 108.º aniversário do seu nascimento. Trata-se de uma das personalidades mais carismáticas da música sacra em Portugal no séc. XX, que fundou o Centro de Estudos Gregorianos (posteriormente reconvertido no atual Instituto Gregoriano de Lisboa), berço da escola portuguesa de órgão. Nas palavras do eminente musicólogo Jacques Chailley, antigo diretor da Faculdade de Musicologia da Sorbonne (Paris), “o nome de Júlia d’Almendra deverá figurar em primeiro lugar entre os servidores da música sacra”. Cf. Idalete Giga (coord.), Júlia Amélia Gomes d’Almendra. Centenário do nascimento (1904-2004), Lisboa, Centro Ward, 2004, p.5.
1. Nota biográfica
Júlia d’Almendra nasceu em Samões – Vila Flor (Trás-os-Montes) em 1904 e fixou-se em Lisboa pelo ano de 1912. Violinista precoce, apresentou-se no Teatro Nacional de S. Carlos aos 11 anos; posteriormente, após ter concluído o curso superior de Violino no Conservatório Nacional, exerceu a sua profissão tocando em várias orquestras de Lisboa. No final da década de 30, começou a interessar-se pelo canto gregoriano, estudando-o com os padres Pascal Piriou e Inácio Aldassoro no Seminário dos Olivais. Pouco depois, abandonou definitivamente a carreira de violinista para se dedicar em exclusividade ao estudo e promoção do canto gregoriano e da música sacra em geral. Nesta mudança de rumo, teve uma influência decisiva a musicóloga francesa Solange Corbin, que no início dos anos 40 fez importantes estudos sobre o espólio musical dos conventos portugueses, incluindo o Convento de Jesus em Aveiro. Júlia d’Almendra atribui-lhe a consciência dos “largos horizontes” que a nortearam por novos caminhos. Houve uma frase determinante, proferida por esta eminente musicóloga: Portugal nada perdia com uma violinista a menos, mas o campo da música sacra estava deserto e nele Júlia d’Almendra teria uma missão a executar (Canto Gregoriano, n.º 26, p. 7). Estas palavras calaram fundo numa mulher de fé, disponível para o serviço da Igreja; assumiu plenamente esta missão, a que se dedicou de alma e coração até ao fim dos seus dias.
O “deserto” a que se referia Solange Corbin era a investigação musicológica no campo específico da música sacra (o curso de Ciências Musicais seria criado apenas em 1980, na Universidade Nova de Lisboa), a prática organística num país invadido pelo harmónio e pelo amadorismo, e a ausência de escolas de música sacra. Plenamente devotada à sua missão, partiu para Paris em 1946, como bolseira do Governo Francês, para estudar na Sorbonne e no Instituto Gregoriano, onde concluiu o curso com a tese Les modes gregoriens dans la musique de Claude Debussy, apresentada em 1948 e publicada em 1950; este trabalho é ainda hoje considerado como uma referência no estudo da obra daquele compositor.
O mérito da obra de Júlia d’Almendra foi reconhecido pelo Governo Francês em 1958; a Santa Sé atribuiu-lhe a Medalha Pontifícia Pro Ecclesia em 1974, por ocasião do 25.º aniversário das Semanas Gregorianas de Fátima e, finalmente, o Governo Português condecorou-a em 1984 com a Medalha de Instrução Pública.
2. Um projeto
com objetivos bem definidos
De regresso a Portugal, Júlia d’Almendra tinha já um projeto para a música sacra e uma estratégia inteligentemente definida para o executar, contando para isso com o apoio incondicional dos seus mestres e com a colaboração do Episcopado e do Governo Português. Passando de imediato à ação, em 1950 cria as Semanas de Estudos Gregorianos, um amplo movimento de formação que reuniria participantes de todas as dioceses do país. Foram inauguradas solenemente no salão do Conservatório Nacional em 10 de abril de 1950, em sessão presidida pelo Sr. Cardeal Patriarca, com a presença do diretor do Instituto Gregoriano de Paris e de membros do governo português. A sessão integrou um pequeno recital de órgão pelo então professor da disciplina, Filipe Rosa de Carvalho, como afirmação inequívoca da presença insubstituível deste instrumento na música sacra. De resto, a planificação das Semanas incluiu quase sempre um concerto de órgão e, a partir de 1972, também um curso de aperfeiçoamento. As Semanas continuam a realizar-se, agora sob a direção da professora Idalete Giga; tiveram lugar em Fátima até 1996 e, a partir daí, em diferentes dioceses (em 2010, realizou-se em Aveiro a 59.ª).
Em 1951, foi criada a Liga dos Amigos do Canto Gregoriano, uma associação de apoio a toda a atividade a desenvolver e, dois anos mais tarde, o Centro de Estudos Gregorianos, a 1.ª escola de música sacra em Portugal com ensino superior, para a formação de investigadores e de músicos de Igreja profissionais – diretores de coro, cantores e organistas. Júlia d’Almendra fundaria ainda, em 1956, a revista Canto Gregoriano – de que seria a diretora e principal redatora até ao termo da publicação (1984) -, órgão formativo e informativo, onde encontramos artigos sobre temas no âmbito da música sacra (incluindo interessantes e diversificados estudos sobre o órgão), reflexões, críticas de concertos e informações sobre o panorama desta área em Portugal e no estrangeiro. No mesmo ano seria também iniciada a lecionação de classes infantis segundo o método Ward.
Na próxima semana: O nível musical dos músicos da Igreja – a palavra incómoda de Júlia d’Almendra. Uma formação superior para o organista.
