Cardeal-patriarca propõe que se olhe para lá da crise

D. José Policarpo diz que o momento é de reflexão sobre sistema económico e pede esperança no futuro.

O cardeal-patriarca de Lisboa, D. José Policarpo, defendeu que o “destino fundamental” do país e da Europa têm de ser definidos para lá da atual crise, apelando a uma reflexão sobre o sistema económico.

“Nós temos possibilidade, se formos solidários, de resolver os principais problemas aflitivos que os nossos irmãos estão a passar, não as grandes questões económicas, mas no terreno”, afirmou o presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) numa entrevista à agência noticiosa católica Ecclesia e ao programa “70×7”.

Este responsável alerta para o risco de as pessoas se deixarem “entusiasmar” ou “manipular” num momento de dificuldade económica e lamentou que se esteja a “destruir o sentido de comunidade nacional”.

“Tudo o que está a acontecer, manifestações, que eu compreendo, as greves, não resolvem nada, temos todos de pedir uma serenidade que é fruto da esperança: isto é possível, que Portugal passou épocas muito mais difíceis do que esta”, acrescentou.

D. José Policarpo sustenta que cada português deve ser “protagonista” da solução, numa altura “difícil para muitos, mas não para todos” e considerar-se como mais do que “beneficiário da ajuda do Governo e dos outros”. “Se todos nós formos solidários, este momento difícil pode trazer um rosto novo à nossa convivência”, referiu.

Para o patriarca de Lisboa, em causa está a “compreensão da pessoa humana” e a falta de respeito pelos valores fundadores da União Europeia, nascida após a destruição da II Guerra Mundial, que exigem uma “cultura nova”.

“O momento que alguns países estão a viver, entre os quais o nosso, deve-se a um otimismo ingénuo quando a finança e a economia se separaram e o mundo financeiro passou a ser uma fonte de lucro sem produção económica”, observou ainda.

D. José Policarpo considera um “erro enorme” o excesso de preocupação económica e financeira nas instituições comunitárias e lamenta que “modelos de vida e expectativas” tenham levado a “gastos desnecessários” por parte da população e a “endividamentos públicos”. Para este responsável, é indispensável que qualquer solução seja “aplicada com sabedoria”, tendo particular atenção para os que mais sofrem.

“Nós, Igreja, perante a hecatombe de problemas que esta situação gerou, reagimos não com discursos, mas com ação” e atenção ao “problema real das pessoas”, declarou.