No 20.º aniversário da morte de Júlia D’Almendra (1904-92) Terceiro e último artigo sobre a vida e obra de Júlia d’Almendra (1904-1992), figura maior da música sacra em Portugal.
5. A década de ouro da
vida organística
em Portugal
Os anos 60 foram, sem dúvida, a década de ouro da vida organística em Portugal, mercê do investimento em docentes altamente qualificados nas duas escolas de Órgão – o Conservatório Nacional e o Centro de Estudos Gregorianos – e do envolvimento da Fundação Gulbenkian na construção e restauro de instrumentos, no apoio à formação de organistas e na promoção de ciclos de concertos. Bastará citar os órgãos novos da Sé de Lisboa e do auditório da referida Fundação (1964 e 1967), o restauro do órgão da Sé de Évora (1967), a audição da obra integral para órgão de J. S. Bach (1965-66) e o ciclo Música Latina para Órgão (1967). No campo da escrita para órgão, refira-se igualmente o prémio Conservatório Nacional em Composição, que em 1962 foi destinado ao órgão e ganho pela compositora Constança Capdeville*, e o Concurso Nacional de Composição Carlos Seixas, que em 1963 foi destinado ao mesmo instrumento, dando origem a importantes composições, com destaque para a Sonata de Igreja para a Noite de Natal, de Frederico de Freitas (obra vencedora) e o Tríptico para Órgão, de Manuel Faria, que foi objeto de uma tese de mestrado por Celina Martins, na Universidade de Aveiro. No final da década (1969) seria ainda escrita, por encomenda da Fundação Gulbenkian a Frederico de Freitas, a Fantasia Concertante para órgão e orquestra de câmara, a única obra do género composta em Portugal no séc. XX.
6. A construção
da escola portuguesa
de Órgão
Embora as citadas iniciativas não tenham sido organizadas pela escola que Júlia d’Almendra fundou e dirigiu, elas são consequência de uma verdadeira revolução organística operada em Lisboa pela criação e desenvolvimento da classe de Órgão do Centro de Estudos Gregorianos e da intensa atividade pedagógica dos seus titulares, particularmente do prof. Sibertin-Blanc, o principal obreiro na construção da escola portuguesa de Órgão. A música dos nossos compositores mereceu-lhe sempre a melhor atenção, não tivesse sido o seu primeiro concerto em Portugal realizado no emblemático instrumento de S. Vicente-de-Fora. Além disso, ao nosso país dedicou uma das suas composições – a Suite portugaise – estreada na Sé de Lisboa em 28 de março de 1976, num programa inteiramente dedicado à música portuguesa, antiga e moderna.
Apesar do florescimento da classe de Órgão do Conservatório nas décadas de 50 e 60, foi no Centro de Estudos Gregorianos que se concentrou a esmagadora maioria dos professores que iriam ocupar os nossos postos de ensino (secundário e superior), bem como dos elementos do clero que tinham ou viriam a ter lugares de responsabilidade nas suas dioceses ou comunidades religiosas. Citemos, a título de exemplo, no primeiro caso, Joaquim Simões da Hora – o discípulo de Sibertin-Blanc que ao assumir a regência da classe de Órgão no Conservatório Nacional em 1976, deu um passo decisivo na afirmação do repertório organístico português -, António Duarte, João Vaz, João Paulo Janeiro, João Pedro Oliveira, Rui Paiva (discípulo de J. Simões da Hora) e o próprio signatário desta nota. No segundo caso, citemos os PP. António Cartageno (Beja), Joaquim Lavajo (Évora), António de Sousa Fernandes (Braga), Joaquim Pinto Geada (Guarda), Gruppo Sérgio (Coimbra), João Salvador Morais (Lisboa) e Mário Silva (OFM).
De facto, contemplando o panorama organístico português, deparamo-nos com uma frondosa árvore genealógica do Centro de Estudos Gregorianos, cuja sombra cobre Portugal de lés-a-lés, repleta de gerações de organistas. Alguns anos após a reconversão no Instituto Gregoriano de Lisboa em 1976, na aplicação da reforma do ensino da música de 1983 o projeto de Júlia d’Almendra, de uma escola superior de música sacra, foi desarticulado ou, melhor dito, destruído. Foram transferidos para a recém-criada Escola Superior de Música de Lisboa os cursos superiores, incluindo o de Órgão, que continuou a ser regido pelo prof. Sibertin-Blanc até ao ano 2000, data da sua aposentação.
Júlia d’Almendra retirou-se em 1985 com a amargura de ver amarfanhado o desenvolvimento da escola portuguesa de música sacra, ao fim de 30 anos de trabalho sem desfalecimento; mas, ao mesmo tempo, partiu com o sentimento claro de ter cumprido integralmente a “missão” que assumira ao ouvir, 40 anos atrás, as palavras proféticas de Solange Corbin. A semente germinou e deu fruto abundante, particularmente visível no panorama organístico português. É que, além de inteligente e disciplinada estratega, Júlia d’Almendra foi, acima de tudo, uma mulher de fé, que assumiu de corpo inteiro a missão de servir a música sacra. Para terminar, escolhemos a expressiva recapitulação feita pelo Cón. Dr. Manuel Faria no seu depoimento, por ocasião da atribuição da Medalha Pontifícia Pro Ecclesia à fundadora do Centro de Estudos Gregorianos: “A obra de Júlia d’Almendra, perfeito ato de fé”.
* A informação referente ao Conservatório Nacional foi recolhida por Celina Martins
