A tentação de confundir a fé com uma gnose, com o simples conhecimento de um conjunto de verdades, não é apenas um erro de reflexão filosófica e teológica. Muitos dos cristãos, dos mais ilustrados aos mais simples, vivem da ideia de que “saber a doutrina toda” equivale a trilhar os caminhos do discipulado.
Mas, na verdade, os verdadeiros cristãos não são alunos, bons alunos, que sabem a matéria toda. São, antes, os que seguem o caminho do Mestre, os que se identificam com as Suas atitudes, que percorrem, lado a lado com Ele, as ruas e vielas da sua vida familiar, do seu trabalho, da sua vida social.
Na proclamação do Ano da Fé, Bento XVI advertiu para a necessidade de descobrir que o fundamento da fé é “o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo”.
Celebrámos, há poucos dias, uma figura carismática na vida da Igreja – S. Francisco de Assis -, exemplar acabado disto mesmo. O sofrimento que lhe bateu à porta proporcionou-lhe, como a tantos outros, esse encontro fascinante. A sua vida transformou-se: a opulência deu lugar ao amor da pobreza, a fama perdeu em favor da humildade, o ambiente de fausto foi vencido pela simplicidade do diálogo com a natureza… A íntima ligação com a superabundância de entrega do Crucificado tornou-o o mais pacífico revolucionário cristão de todos os tempos.
Ao iniciarmos a vivência do Ano da Fé, comemorando 50 anos de um Concílio que pretendeu abrir as portas e janelas da Igreja para acolher a frescura deste Evangelho da intimidade com Jesus Cristo na proximidade dos mais simples e da natureza, felizes por sermos um Igreja em Jubileu, as palavras do Santo Padre têm de nos deixar inquietos.
No centro das nossas preocupações e vivências pastorais está a busca do encontro com essa Pessoa única? A comunicação que fazemos veicula este acontecimento que transformou a história da humanidade? Por que fracassam tantos itinerários de catequese, tantas formações (cursos), tantos encontros?
Para além dos conteúdos, focados no essencial, a convicção dos mediadores é fundamental. O testemunho é pressuposto essencial para o êxito da comunicação. Bispos e padres, religiosos, religiosas e leigos, homens e mulheres, de todas as condições e idades, comunicam mais eficazmente com o que vivem do que com o que dizem. O Espírito Santo não passa pelas palavras, se não passar pelas atitudes. Os “funcionários” não levedam, não dão sabor, não iluminam!
É mais uma oportunidade que o Céu nos concede de acordarmos do sono das rotinas, do tradicional que nada tem a ver com a Tradição apostólica, para uma vida com sentido, mergulhada no Sentido Único, que é Jesus Cristo. Fomos escolhidos, para irmos e darmos fruto e fruto que permaneça! É o tempo oportuno, é a hora da Graça!
