Questões Sociais O discurso mais mediatizado, sobre o diálogo, é fortemente belicista; apresenta, quase sempre, um dos interlocutores como vencido e o outro como vencedor. Também, quase sempre, faz questão de assinalar qual o interlocutor que fez mais cedências e o que fez menos, presumindo que o primeiro é o vencido e o segundo o vencedor.
Contrariamente a esta conceção belicista, o diálogo e a negociação, nos domínios social e político, situam-se no plano da cooperação e da procura dos entendimentos possíveis. No diálogo, tal como na negociação, verificam-se, pelo menos, dois tipos de realidades: os interlocutores e os problemas a resolver. E ele será tanto mais frutuoso quanto mais contribuir para a solução desses problemas. As posições dos interlocutores não funcionam como autoafirmação mas sim como verdadeiros contributos.
No final de cada diálogo, ou negociação, pode acontecer que tenham prevalecido os contributos de um dos interlocutores, mas daí não decorre o direito de ele se afirmar como vencedor: com efeito, o outro interlocutor, ao aceitar determinada via de solução, deu um contributo significativo para ela; e não podemos esquecer que nem sempre prevalece a opinião dos mesmos interlocutores. Também não podemos esquecer que, muitas vezes, nem se consegue apurar qual foi o contributo de cada um; aliás, esse apuramento até pode constituir uma expressão de mesquinhez e de egoísmo fechado à cooperação. A este propósito, refere-se na encíclica «Ecclesiam Suam», de Paulo VI, 1964, que o verdadeiro «diálogo não é orgulhoso, não é agressivo, não é ofensivo. (…); não é comando, não é imposição. (…) É pacífico (…). Cria familiaridade e amizade, enlaça os espíritos numa adesão mútua ao Bem que exclui qualquer interesse egoísta» (n.º 81). No fundo, implica a procura da verdade, com outrem; e torna patente que, no domínio das realidades contingentes, ninguém é detentor da verdade total.
