Diocese de Aveiro quer reorganizar-se

Durante quatro dias, bispos, padres e diáconos abordaram “a Igreja que queremos ser”. D. António Francisco promete “ser consequente quanto às sugestões apresentadas”.

“Sem precipitações mas sem demoras, cumpre-me ser consequente quanto às sugestões apresentadas nestes dias”, afirmou o Bispo de Aveiro, na conclusão das jornadas de formação permanente para padres e diáconos, que decorreram na Casa Diocesana, em Albergaria-a-Velha, de 28 a 31 de janeiro. Em reflexão estiveram três grandes assuntos, a reforma da cúria (secretariados e serviços diocesanos), a reorganização territorial, incluindo a distribuição do clero, e a iniciação cristã (catequese e pastoral dos sacramentos do Batismo, Eucaristia e Crisma). A formação teve como tema geral “Da Missão Jubilar à Igreja que queremos ser”.

D. António Francisco lembrou que a Missão Jubilar é a hora oportuna para refletir e agir no sentido de “sermos Igreja que vive a mesma fé na abertura à novidade de Deus e à ousadia do Espírito”. E afirmou: “As estruturas diocesanas são meios e não fins. Não basta que existam, é preciso que funcionem para servir as pessoas e sermos melhor Igreja”.

Serviços simples

e funcionais

Sobre a cúria diocesana, quanto à sua organização, coordenação e relação com as realidades territoriais, os padres de Aveiro apontaram as seguintes propostas “rumo ao futuro”, conforme se lê numa síntese do encontro elaborada pelo P.e João Alves: emagrecer as estruturas diocesanas, tornando a sua organização mais simples, funcional e autêntica; dinamizar a realidade dos arciprestados como unidade de ação pastoral coordenada a nível territorial; potenciar o Gabinete de Imagem e Comunicação da diocese para que a comunicação seja verdadeiramente importante nos tempos que correm; primar pela competência e liderança nos serviços diocesanos. Propôs-se ainda a criação de uma equipa que, com base nestas ideias, elabore um organograma da cúria diocesana.

Apostar no arciprestado

e envolver leigos

Quanto à reestruturação paroquial e à distribuição do clero, o documento-síntese refere: “Sentiu-se que a Missão Jubilar traz consigo caminhos de renovação, se assim soubermos aproveitar, entre outras realidades, o dinamismo dos leigos envolvidos, a valorização das equipas arciprestais de pastoral e dos conselhos paroquiais nas novidade das suas propostas, as iniciativas que interpelam a uma nova atitude de evangelização, um melhor conhecimento do que temos e somos”. Os padres e diáconos afirmam que “há muito a fazer para que o arciprestado [conjunto de paróquias que, geralmente, corresponde ao concelho] viva como uma pastoral de conjunto”, ainda que haja “caminhos de amizade e unidade entre os sacerdotes”. Defendeu-se a abertura à “colaboração laical” e concordou-se com a possibilidade de unidades pastorais, isto é, um conjunto de paróquias sob a direção de uma equipa de padres mais diáconos, leigos e religiosos, “quando oportuno”.

Unidade na celebração

do Batismo

O documento-síntese aponta, por fim, “algumas inquietações” quanto à pastoral dos sacramentos da iniciação cristã. Afirma que é importante haver propostas para adultos que pedem formação cristã e para crianças que se preparam para os sacramentos, tanto mais que a diocese “vive em atitude missionária”. Alerta para a necessidade de “unidade na Igreja em Portugal” neste campo, tal como na Diocese de Aveiro. Por outras palavras, os padres pedem orientações que “unifiquem” sem uniformizar. O documento denuncia que a “catequese longa” nem sempre “conduz a opções de vida conformes com a fé professada” e termina em tom mais pedagógico. Quando se trata do Batismo em “situações irregulares”, que o documento não identifica mas se referem provavelmente ao caso de pais divorciados, em união de facto e recasados civilmente, “a atitude de acolhimento deve ser cada vez mais percetível” e dela devem resultar “propostas de acompanhamento exigentes e frutuosas”.

Reflexão alargada

As jornadas privilegiaram a “livre intervenção de padres e diáconos nas suas preocupações sobre os temas”. Na síntese elaborada por João Alves adianta-se que não houve “conclusões” propriamente ditas sobre os trabalhos porque se quis deixar “espaço em aberto para que outras instâncias diocesanas de aconselhamento possam intervir nas problemáticas apresentadas” e para que “as instâncias pastorais competentes possam aproveitar a reflexão do clero da diocese”. “Temos consciência que levantámos o véu a uma reflexão que não está e nunca estará fechada por evoluir ao ritmo da própria Igreja”, pode ler-se. Por isso mesmo, assinale-se como algo de positivo as várias notas de imprensa que o Gabinete de Comunicação e Imagem da Diocese de Aveiro emitiu ao longo das jornadas. Provocaram várias notícias na imprensa regional, o que constituiu uma forma de alargar a reflexão a outras pessoas.

Patriarca contra o individualismo da fé

As jornadas abriram com a intervenção do Cardeal-Patriarca de Lisboa, que lembrou que a nova evangelização é um desafio deixado por João Paulo II em reação às tendências da “tecnocracia da evangelização” e ao risco de a Igreja “perder o vigor do anúncio do Evangelho nas estruturas onde está implantada”. D. José Policarpo realçou o valor da comunidade sobre o individualismo dizendo que “o ‘nós’, na alegria de pertencer a uma Igreja concreta, deve sobrepor-se a individualismos da fé”, pelo que na comunidade-diocese o exercício do sacerdócio é uma “força colegial e não autoridade individual”. Na mesma linha, sobre a relação entre bispo e padres, afirmou que “quem obedece tem sempre razão; quem manda, nem sempre”. Contra o individualismo, disse ainda: “No dia em que eu confessar apenas a minha fé e não a fé da Igreja, estou a confessar apenas uma fezada”.

D. José Policarpo, que é atualmente presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, afirmou que “não há nova evangelização sem celebrar bem a Eucaristia, que não deve ser formalista e é muito mais do que ir à missa”. Sobre as estruturas pastorais, disse que são “necessárias e invitáveis”, mas podem e devem ser “emagrecidas”.

Sacramentos são alicerces e não metas

“Os sacramentos são alicerces, pontos estruturantes, meios da graça, pelos quais a iniciação cristã acontece e nunca pontos de chegada ou diplomas de assiduidade e bom comportamento na catequese”, afirmou P.e Paulo Malícia, diretor do Departamento de Catequese do Patriarcado de Lisboa, segundo o qual se perde demasiado tempo a “discutir a data do Crisma”, em vez de se olhar para o que a Igreja propõe. O sacerdote lamentou a falta de unidade de critérios e propostas para os sacramentos da iniciação cristã – Batismo, Comunhão e Crisma – nas diferentes dioceses portuguesas. O mesmo é sentido pelos padres de Aveiro, que, por isso, pedem aos bispos portugueses que definam critérios de unidade em relação à pastoral sacramental da Igreja.

Menos 38 padres em 10 anos

D. António Francisco afirmou que em 10 anos a diocese perdeu 38 padres. “Éramos 115 há dez anos, somos 77 agora”, apontou, pedindo a cada padre e a cada diácono o empenho numa pastoral vocacional que chame, proponha e testemunhe a alegria de servir a Cristo com entusiasmo. “Ninguém nos substituirá nesta missão da pastoral vocacional”, disse D. António Francisco.