Poço de Jacob – 140 Litúrgica e biblicamente, a alegria não se confunde com o divertimento nem com a felicidade. O ser humano nunca será absolutamente feliz na terra. Porque a nossa fé é pequena e menor ainda a nossa confiança, a vida está envolvida em nevoeiro, e as preocupações da vida e os sofrimentos, além da certeza da morte, nublam a nossa ânsia de felicidade.
A terra, por muito bela que seja, como a vida, não é o paraíso. Estamos a caminho, já vivendo o mesmo, incoativamente, ou seja, em iniciação, dentro de nós. De facto, o Reino já chegou, mas espera a manifestação definitiva de Nosso Senhor Jesus Cristo para ter a total soberania sobre a obra criada. Vamo-nos deixando fazer.
Na Bíblia, sempre que nos fala de alegria, ela vem associada à afirmação de que o Senhor vem, virá ou está no meio de nós. A alegria, neste contexto, e o evangelho de S. Lucas é o da alegria, é um dom e sintoma, ou seja, fruto da presença do Espírito Santo em nós. A alegria bíblica existe quando eu choro, quando eu estou de luto ou quando eu sofro. Não só nos momentos ditos alegres. E traduz-se em atitudes interiores e exteriores que adquirem nomes diversos conforme as circunstâncias.
Assim, sabemos que para ter essa alegria devemos estar com o Senhor! Mas como e onde? A consciência da presença de Jesus em nós é o primeiro passo e a isso se chama oração. Não se trata de rezar, ou seja, recitar fórmulas, mas de respirar Deus, ou seja orar. Como os enamorados, orar dispensa palavras e fica no olhar interior que me leva a crer na presença do Senhor em mim… e, no sacrário da minha Igreja. E o sacrário é a maior invenção de sempre colocada ao serviço dos homens. Igrejas fechadas com medo de ladrões impedem que o povo de Deus saboreie essa dádiva. A ausência de exposição prolongada do Santíssimo Sacramento mata o nosso povo de fome e sede. E não acordamos ainda para isso. Em vão esperamos uma exposição perpétua na nossa diocese…
Quando estamos aos pés do tabernáculo, a alma expande-se e a alegria, que aqui se chama paz, conforto, segurança, invade-nos. Algo de extraordinário acontece, embora impercetível, na alma e na vida de quem adora o Senhor. Ele nos atrai, nos eletriza na sua energia de amor. Quando saímos para as tarefas, sentimos a alegria que nos envolve, já com outro nome chamado confiança – e esperança. Misteriosamente, o Senhor também está presente na dor e no sofrimento, embora nos seja difícil entender. Mas esta é a sua dinâmica redentora desde o princípio. Está bem perto, e diria, mais perto de ti no momento do sofrimento. Quem vive nessa perspetiva sente a alegria que lhe banha o rosto, com as lágrimas e isso chama-se conforto e fortaleza. Também o encontras no cumprimento fiel da sua vontade, no cumprimento do teu dever de cada dia e isso te enche de alegria, pois essa segurança da fidelidade chama-se santidade. E, claro, no irmão que te pede. A alegria aí chama-se caridade e sabes que é ao Senhor que serves, mesmo sabendo que podes receber em troca a ingratidão.
Ele é quem tem a recompensa… A alegria existe para ti. Mas há algo de mais incrível. No projeto de Deus há um momento da tua existência em que és chamado a experimentar a maior alegria de sempre. Se viveres os itens anteriores e conseguires caminhar com o Senhor, a tua vida chegará ao ponto em que brilhará a alegria que não se nubla, e esse momento é… a morte. É aí que sentirás o teu ser projetado nos braços visíveis do Pai, onde já não haverá dor, nem luto, nem lágrimas, mas paz e felicidade sem fim. Então, a alegria passará a chamar-se simplesmente… céu.
Vitor Espadilha
